sexta-feira, 21 de novembro de 2008

a educação dos nossos filhos # 4


Muitas são as teorias que os pais assumem como verdades antes de, realmente, serem pais: que nunca deixarão os filhos fazer uma birra para comer, que nunca cederão às suas exigências menos razoáveis, que nunca se deixarão manipular, que sempre se basearão no diálogo e na abertura para resolver todo o tipo de problemas, tenham eles a idade que tiverem, e outras dissertações que tais.

Na prática, a maioria nunca as porá em prática, pelo menos o tempo suficiente para que surtam efeito, e nunca me esqueço do dia em que, muito sabiamente, a minha mãe, mãe de 4 filhos, me disse que 'era uma vez' um senhor que não tinha filhos e sete teorias e depois já tinha sete filhos e nenhuma teoria.

Também muitos são os livros escritos por psiquiatras, psicólogos, sociólogos e uma série de especialistas, que analisam de uma forma sistemática o comportamento dos pais e as consequências imediatas, a médio e a longo prazo nos comportamentos prováveis, quase certos e definitivamente assegurados dos filhos, e vice-versa.

Nas reflexões que tenho vindo a fazer sobre a educação dos nossos filhos, já emiti a minha opinião - que é apenas mais uma e vale o que vale - sobre a falta de respeito e a tal 'palmada' que até levámos em crianças e que em nada nos afectou negativamente.

Junto as duas, para hoje sublinhar a necessidade de haver diferenciação na postura entre pais e filhos, sendo que os primeiros podem continuar a ser os melhores amigos dos segundos, sem que seja preciso haver uma inversão, baralhação ou confusão nos papeis de cada um.
Deixarei aqui o que penso, que fiz e assumi com a minha filha, e que até agora resultou, mas que em nada também pressupõe que resulte nos filhos dos outros, porque cada um, pai, mãe e filhos, têm personalidades, educações, culturas, princípios e experiências de vida diferentes, que condicionam toda a vivência em conjunto.

Por isso, as minhas únicas teorias foram a do 'sim' e a do 'não'.
Desde que a linguagem oral /expressiva começou a ser compreendida pela minha filha, o que acontece com todos os bébés desde muito cedo, para tudo o que ela pretendia fazer e necessitava de aprovação ou advertência, usava sempre as mesmas palavras: 'sim' e 'não'.

À medida que foi crescendo, e as situações se tornaram mais complexas, achei cada vez mais importante manter a clareza do 'sim' e do 'não', ou de uma forma mais explícita, pus-me do lado da capacidade de compreensão dela e percebi que só muito, mas muito mais tarde, ela compreenderia o conceito do 'às vezes'.

E esse mais tarde, segundo estudos anatómicos que me surpreenderam entretanto, só viria depois da adolescência, quando determinada parte de um cérebro em constante crescimento, atingisse a maturação e se auto nivelasse após o bombardeio constante de hormonas em desalinho. Mas, na altura, eu nem sabia nada disto, claro. Foi intuitivo e institivo e apliquei esta regra com o mesmo rigor de uma tabela aritmética.

Fui muitas vezes confrontada por amigos, familiares e conhecidos que me indagavam porque é que eu não podia 'deixar a menina, 'tadinha, fazer não sei o quê, só daquela vez, que até não tinha importância nenhuma' . E de todas as vezes respondi o mesmo: porque para a próxima não o poderá fazer e não saberá porquê e dir-lhe-ei sempre não, em circunstâncias idênticas, até ao dia em que ela tenha idade suficiente para que ambas possamos assumir as consequências que possam advir de lhe dizer sim. Mais resumidamente: Quando se diz 'sim' a criança assume que para o mesmo comportamento a resposta será sempre 'sim', o mesmo acontecendo quando se diz 'não'. Acho que é simples. Digo eu, que de pedopsicologia nada entendo.

Como levei este conceito à letra, os epítetos de 'radical', 'má', 'incompreensiva' e 'inflexível', caíram-me em cima, chovendo críticas de todos os lados, e foram muitas as vezes em que quase soçobrei, ou pelo menos estremeci, quando me afirmavam redondamente que a rapariga, no mínimo, se ia revoltar e odiar a vida inteira. A única coisa que me fez continuar, foi vê-la, a cada dia, maior, mais inteligente e comunicativa, saudável psicológicamente e sobretudo, incapaz de recusar um carinho, um beijo, um mimo aos pais.
Verdade seja dita, que foi no mínimo discutível o que serviu este conceito, na chamada 'idade do armário' - muita parvalheira junta, muita infantilidade e maturidade, misturada e baralhada no tal batido de hormonas histéricas, porque todos os jovens passam, mais tarde ou mais cedo, sendo que, nas raparigas, esta idade crítica costuma corresponder aos 11-14 anos. E se paciência e diálogo são armas fundamentais, firmeza de comportamentos e de juízos, por parte dos pais, serão imprescindíveis - e aqui, faço um parêntesis, para reforçar que esta é apenas uma opinião, neste caso a minha, porque o blog é meu e eu digo aqui o que me apetecer.

Não foi fácil ultrapassar esta fase, principalmente porque os 'nãos' eram a maior parte das respostas, os 'sins' arrancados a ferros e o controlo e vigilância exigidos, do mais águia rapina que havia, sobrevoando atentamente as acções e caindo a pique, com as garras todas de fora, quando, vernaculamente falando, 'mijava fora do penico'.
Por isso, muito francamente, e para terminar esta reflexão, que já vai longa, direi que, pelo menos, nunca me arrependi de qualquer 'não' que lhe disse, os 'sins' sempre lhe souberam bem pelo esforço que fez para os conquistar e neste momento, 17 anos volvidos, tenho o orgulho de ter em casa uma rapariga que não é 'às vezes', mas sempre, educada, simpática, saudável, alegre e muito, mas muito, mas muito mesmo, mimalha e carinhosa com os pais, avós e restante família, a quem respeita criteriosamente.

Mas isto, claro, é uma mãe babada a falar, não é??





24 comentários:

salvoconduto disse...

Topa-se à distância, pelos vistos fez por merecê-la.

Gi disse...

Os mesmos pressupostos presidiram à educação dos meus dois filhos;
No entanto, os "sins" e "nãos" dados variavam, porque são 2 filhos, radicalmente, diferentes.
E o mais novo, principalmente, compara e rivaliza imenso com o irmão.
Alturas havia e há, porque tem 17 anos, que ainda me pergunta porque é que o irmão pode isto e aquilo e ele não?
Ambos, até agora, só me têm dado alegrias no seu percurso.

Tretoso Mor disse...

Si,

Estou totalmente de acordo, e até mais um bocadinho, 110%.

Esse bocadinho é a solidariedade para com a tua resistência perante as "opiniões" externas, por que eu também passei, que "martelavam" os meus ouvidos insistentemente.

Um dos exemplos que tive, aconteceu com uma pessoa muito chegada, a minha cunhada, que ainda sem filhos e perante alguns nãos e conversas com a miha filha mais velha, dizia que eu era um pai austero. Um dia, depois de uma conversa mais acesa sobre esse tema, tive de lhe dizer que, quando os filhos dela nascessem, faria o que quisesse.

Hoje tenho dois sobrinhos, mas relativamente à mais nova, agora com 9 anos, diz-me a minha cunhada: com esta devia ter feito as coisas como tu fizeste com a tua filha.

Isto não tem a ver com facto de eu ter ou não razão, até porque as crianças são diferentes. E se por vezes fucionam bem com um através de um determinado processo, com outro, para se obterem os mesmos resultados, poderão ter de se adoptar processos ligeiramente diferentes.

Mas atenção que eu disse "processos ligeirmente diferentes", agora a essência penso que tem de ser a mesma. No início o rigor das afirmações e das acções, pois serão o exemplo para o futuro, sempre com a explicação do motivo porque se fez a afirmação ou se praticou o acto.

Também tenho duas, uma com 18, outra com 13 anos, ou seja, uma a querer saír da idde da prateleira, a outra no auge, e com as duas tive de adpotar processos ligeiramente diferentes, pois os caminhos de cada uma para um determinado fim, são diferentes. Mas, todo o cuidado é pouco, pois nenhuma se pode sentir injustiçada pela diferença dos processos adoptados. É que elas percebm-nos!

Estiquei-me no comentário. Sorry!

Tretices solidárias para Si.

http://tretas-da-vida.blogs.sapo.pt/

Antonio saramago disse...

MAMÃ BABÁDA!
Quem não gostara de ter uma MÃE como tu?
NINGUÉM!!

Vekiki disse...

Si, eu, tal como a tua Mãe, sou Mãe de 4 Filhos. Tal como tu tenho uma Filha, a mais velha, com 17 anos. Tal como tu, sempre pus muito bem os pontos nos iiis e nos sins e nos nãos. Digo-te que não tenho nada a dizer da minha Filha, zero. É uma miúda super calma, feliz, responsável, boa aluna e não é tótó nem marrona. É uma miúda Normal!!! Anteontem quando fui falar com a DT dela, até vim de lá nas nuvens - a Kiki é sensata, bem formada, um óptimo ascendente para a turma, tem um poder grande e positivo sobre alguns elementos menos "bem comportados".
Nunca li livros sobre como educar. Nunca tive grandes teorias sobre como educar. Vou seguindo o que sinto que funciona melhor com cada um deles e vou andando, um dia de cada vez, na conquista da educação.
Beijos para ti e para a tua adolescente :-), de uma Mãe de dois adolescentes, um pré-adolescente e um "bébé"...de sete anos!

pedro oliveira disse...

Esse nãos são mais dificeis perante os avós, muitas vezes temos de nos "chatear" com eles e garantir que não ouvimos um :mas o avô deixa. Não é fácil,também acredito muito no não e sim convicto, o que nem sempre é fácil.

PO
vilaforte

BlueVelvet disse...

Si,
fiz exactamente o mesmo, embora seguindo o princípio de Victor Hugo de que " com crianças nada de fato feito".
Os meus dois são filhos do mesmo pai e da mesma mãe e completamente diferentes.
Um, organizado, arrumado,determinado,extrovertido, o outro exactamente o contrário.
No entanto, no essencial, ambos iguais: responsáveis, trabalhadores,cumpridores, respeitadores.
Enfim, conhecem e rspeitam os valores que lhes foram incutidos.
Também fui apelidada de má, e outras cositas más. Até castradora me chamaram.
Hoje, prova-se que tive razão.
Mesmo assim, se fosse hoje, houve coisas em que teria sido ainda mais severa.
Educação e respeito devem ser nortear a formação que lhes damos.
O resto vem por acréscimo.
Beijinhos e bom fim-de-semana

Patti disse...

A Beatriz fez 13, um doce de filha e n tem quaisqeur tiques de filha única. Cá por casa tb quando há um não, é mesmo não, nunca é 'nim'.

Concordo com o que disse, mas n se pode proibir tudo aquilo que n concordamos, há males menores a que dou abébias, porque tb aceito as razões dela,mesmo que n sejam as minhas. Gosto muito de a ver argumentar, sinto que fiz bem o meu papel.

Si disse...

Patti,
Falta de capacidade de argumentação é coisa de que a A. não padece, definitivamente!!!
Nesse aspecto (e nos outros todos, que eu nem sei se tive uma filha ou se me limitei a tirar uma fotocópia) sai à mãe....
rsrsrs

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Enttre a teoria e aprática vai uma longa distância. Por razões que já conhece, tenho dificuldade em argumentar sobre esta questão. Há uma coisa, no entanto, que me deixa um bocado apreensivo. É quando ouço pais (ou mães) dizerem: procurei educar todos os meus filhos da mesam maneira. Aliás, ainda hoje ouço isso da minha mãe. Parece-me um erro crasso. Os filhos saõ todos diferentes, por isso não podem ser educados da mesma maneira. Mas se calahr, isto também não passa de uma teoroia...

Filoxera disse...

Se assim é, tens toda a razão em ser babada.
E concordo com a tua ideia de educação; de facto, custa dizer não, sobretudo quando são bem pequenos e ficamos sem saber se compreenderam realmente a razão do não. Mas educação não é condescendência a torto e a direito.
Beijos.

Si disse...

Salvo,
Todos fazemos, não é?
Mal ou bem, mesmo cheinhos de defeitos, malcriados ou estragados de mimos, são e serão sempre nossos filhos e aos olhos dos pais não há outros como aqueles.
Obrigada

Si disse...

Gi,
E é tão bom quando assim é, sentimo-nos tão realizados e compensados pelos nãos que dissemos!
E é evidente que as personalidades de cada um é que definem a melhor estratégia para os orientar. A minha 'Aurora' ainda hoje diz muitas vezes que nem os cinco dedos da mesma mão são iguais entre si, quanto mais os filhos...
Beijinhos

Si disse...

Tretoso,
Essa tarefa ainda é mais difícil, já que se tem que jogar com muitos mais factores e a ponderação, a paciência e a firmeza de critérios ainda mais rigorosos têm de ser, pelas inevitáveis comparações que eles/elas fazem entre si.
Sensatez, muita sensatez, terá que ser sempre a bitola, não é?
Obrigada pelo comentário e pela presença.

Si disse...

António,
Olhe que não sei...
Às vezes sou mesmo mázinha e depois tenho um defeito terrível: sabe aquela coisa que as nossas mães tinham e que apelidavam de "um dedinho que adivinha"???
Entre mães e filhas é uma espécie de 6º sentido, apuradíssimo, que deixa a filha completamente desarmada, e em algumas situações, seriamente desconfiada, se eu não serei mesmo bruxa!!!! rsrsrs

Si disse...

Vekiki,
Já lhe disse no seu blog, que a considero uma mulher de coragem, nos tempos que correm, ter assumido a função de mãe a tempo a inteiro, ainda por cima, de uma família numerosa.
É um 'luxo' que a maior parte das crianças não pode ter e que eu também tive, mas como filha, num tempo em que a condição feminina era sobretudo essa.
Já considero uma tarefa 'hérculea' formar, educar e preparar para a vida 1 filho, quanto mais quatro, de idades tão diferentes.
É uma mulher de coragem, repito, a quem os filhos muito devem querer pela sua total dedicação.
Beijinhos

Si disse...

Pedro,
Quando a minha filha era mais pequena, isso irritava-me e cheguei a amuar algumas vezes, mas à medida que ela foi crescendo e a minha maturidade também avançando, compreendo melhor as atitudes dos avós, e cada vez mais acredito que serei como eles quando e se lá chegar. É estranho, não é?? Mas dizem que os avós são pais duas vezes.....

Si disse...

Velvet,
O Victor Hugo e a minha mãe concordam... nem fato feito, nem teorias.
Temos que ser sobretudo atentos e convictos de princípios que, pelo menos, se baseiem no respeito pelas mais elementares regras de relacionamento social.
E quando olhamos para trás, pensamos sempre que haveria alguma coisa que faríamos diferente.
Beijinhos azuis

Si disse...

Carlos,
Quando os pais dizem isso, pretendem justificar que a mesma preocupação, a mesma conduta, os mesmos princípios e exemplos foram dados aos seus filhos, sem distinção de nada para nenhum e que conscientemente percebem que as reacções a este fio condutor produzem indivíduos diferente e distintos.

Si disse...

Filoxera,
E são precisamente estes 'nãos' que lhes impõem limites e que lhes criam sensação de segurança, qual corrimão feito de braços, para osw quais há sempre a tentação de trepar, quanto mais não seja pela certeza de que lá estarão para lhes indicar o caminho e uns braços para os amoparar...

1/4 de Fada disse...

As crianças necessitam de regras muito precisas para viver e o sim e o não têm que ser claros, porque elas não conhecem senão o preto e o branco, as tonalidades de cinzento só surgem com a idade adulta. Lembro-me bem de me ter arrependido de alguns "nãos" que disse aos meus filhos, porque uma vez ditos eram irrevogáveis, e ainda hoje eles sabem que quando eu digo uma coisa, ela é lei. Educar é muito difícil, de facto, mas acreditem que educar gémeos é tremendo, porque há permanentemente a comparação implícita, e é impossível educar dois filhos de modo igual, assim como acho impossível amá-los de maneira igual - não me refiro à intensidade do amor, refiro-me aos laços, à relação que se cria com cada um deles, que é diferente e única. Os meus filhos são gémeos "falsos" e de sexos diferentes e são, de facto, tão diferentes e opostos que nem parecem irmãos. Os critérios da educação de ambos foram iguais, mas a educação não foi nem é igual porque eles também não o são - praticamente nunca foi preciso ralhar ou proibir qualquer coisa à minha filha, já com o irmão o pulso tem de ser de ferro, porque a tendência para a asneira é fatal. Têm, no entanto em comum, várias coisas: são os primeiros a apoiar-me ou ao pai, são de uma dedicação enorme, imensamente carinhosos e aceitam regras que deixam a maioria dos meus amigos espantados.

Si disse...

Fada,
Estou plenamente consciente dessa enorme diiculdade, tal como já referi nos comentários anteriores.
Relato apenas a minha experiência, sobre a qual salvaguardo que em nada pressupõe que aquilo que fiz resulte nos filhos dos outros ou até num outro filho meu.
A sua vivência com 2 gémeos deve ser esgotante, mas extremamente gratificante, quando, conscientes de que se empenharam ao máximo, os pais podem ver nos seus filhos, seres humanos íntegros e bem formados.
Beijinhos e obrigada pela sua sempre bem vinda presença.

1/4 de Fada disse...

Si, como muito bem diz, criar gémeos é tarefa para uma família inteira, e eu tive essa ajuda, felizmente. É uma estafa, mas ao mesmo tempo fascinante e hoje continua a ser difícil, mas a verdade é que acho que tenho imensa sorte com os meus filhos que, longe de ser perfeitos, são muito melhores do que a maioria dos jovens que eu conheço. Vale bem a pena o esforço de educar. Chego sempre a esta conclusão quando verifico que os jovens que conheço que considero educados são filhos de pais extremamente atentos.

Si disse...

Fada,
Eu compreendo-a perfeitamente.
Tenho duas irmãs que são gémeas verdadeiras e mesmo assim, embora semelhantes fisicamente, não podiam ser mais opostas em feitios.
A minha mãe teve que as educar a elas e ao meu irmão mais velho, que na altura, tinha apenas 2 anos e só soube que a gravidez era dupla, 10 dias antes do parto.
E esta hein??