quinta-feira, 13 de novembro de 2008

crónica de um tempo impossível # 3


Ai, minha rica menina! Já chegou! Que bom, que estava com tantas saudades suas! E cresceu tanto, criatura, lá vou eu ter que pôr umas baínhas abaixo! O riso franco da Joaquina, os braços gordos que a enlaçavam, o cheiro a acúcar queimado do creme de leite acabado de fazer e das compotas de uva e abóbora, confirmavam-lhe que tinha chegado a casa. Ao longe, a mãe, de chapéu de abas largas e avental sobre a saia de godés, acenava com a tesoura de poda na mão contrária à que segurava o monte de flores para enfeitar as jarras da casa. Os irmãos estavam para a cidade e o pai nem o viu, porque só lá mais para a tarde é que ele aparecia, de cachimbo na boca e andar militar, com que passava revista aos tractores e aos trabalhos nos lagares de azeite.

Guidinha! Filha! A menina está bem? Tem passado bem? E comer? Trouxe tudo o que precisava? Não deixou lá nada? É que a menina é tão cabeça no ar, credo, ai, mas dê um beijo à sua mãe, coisa linda, que eu sinto sempre tanto a sua falta, chegue-se cá, cuidado não se pique nas rosas, andei a apanhá-las para as pôr no seu quarto, fresquinhas, rosinhas para a minha menina, para a rosa do meu peito, que foi por eu gostar tanto de flores que lhe chamei Margarida, venha cá, meu amor! Beijinhos repenicados, abraços de inquietação e de saudade, distraíram-lhe os pensamentos por alguns minutos e foi com um sorriso aberto, agarrada pela cintura à mãe, que entrou no solar da quinta e subiu para o quarto.

Ainda sorria, quando a mãe pousou rapidamente as flores em cima do psiché, fechou a porta, espreitando primeiro para fora e se virou para ela, com um ar sofrido, mordendo o lábio, como quem quer falar, mas não tem coragem de começar. Senta-te, Margarida. Senta-te aí. Margarida sentou-se na cama, surpresa com o tratamento por tu. O que foi, mãe? Tenho que te falar duma coisa. O teu pai não queria que te dissesse nada, proibiu-me até, mas acho que já tens idade para saber destas coisas. Que coisas, mãe? De que é que está a falar? Da Sara, querida. A tua melhor amiga. Ela foi expulsa do Colégio, não foi? Sim, mas eu não sei porquê, a mãe sabe de alguma coisa?? Ela está bem? A mãe adoptou um postura mais direita, sentada ao lado da filha. Tu sabes que o teu pai aqui na região é muito conceituado, não sabes? E que foste para aquele Colégio porque o Reitor e ele andaram a estudar juntos, sempre se deram muito bem, e ambos são muito amigos do Regedor. Sei, Mãe, mas o que é que isso tem a ver com a Sara?? Ai, filha, o Regedor contou ao teu pai que parece que o pai dela conhece umas pessoas pouco recomendáveis.... A mãe baixou a voz num sussurro. Margarida, dizem que os pais da Sara são comunistas! São o quê, Mãe? O que é isso?? Ó filha, eu também não sei, só sei que isso não é coisa boa, porque a Polícia já lá foi a casa e tudo, e diz a Joaquina, que é prima de uma servente da farmácia da Vila, que tiraram de lá uma catrafada de papeis, levaram o pai para a esquadra e até agora não houve mais notícias dele. Quando o teu pai soube disto, tratou logo de avisar o Reitor, e olha, em boa hora a tiraram de lá, não fosse ainda ficares mal vista aqui na terra, por te dares com a moça. Ó Mãe, mas isso não é justo! - berrou ela - MARGARIDA! Não fale assim comigo! Não lhe admito que me levante a voz, nem que discuta as decisões do seu pai. Logo ele, que foi tão generoso e pagou até ao final do ano as propinas da sua amiga! O assunto acaba aqui. Conforme-se.


Margarida conformou-se. Sara também. E nem os ventos de Abril, que 10 anos depois sopraram, as voltaram a reunir.

25 comentários:

BlueVelvet disse...

É verdade que estes últimos dias tenho andado mais loira que o costume, mas confesso que não me passou pela cabeça que fosse esta a causa da expulsão.
Não era, de facto, este um dos desfechos que previa.
Talvez porque não vivi esses tempos terríveis. E também, talvez por isso não perceba que, anos passados e já adultas, as duas amigas não se tenham voltado a encontrar.
Mas como a história é sua, deu-lhe esse final.
Ou é verdadeira?
Beijinhos de mim para Si

Antonio saramago disse...

Sinceramente não esperava que fosse este o desfecho da História,
COMUNISMO!!!
As barbaridades que se faziam ás pessoas que tinham IDEAIS contrários ao Regime e assim se desfez uma grande Amizade por culpa da IGNORÂNCIA!
Surpreendeste-me, não há dúvida.

Patti disse...

Pois, surpreendeu-me este final.
Os bufos. É das piores características do Homem, ser bufo. Implica a cobardia, o preconceito, a ignorância.

Mas esta é uma história verídica, não é Si?

Gi disse...

Qualquer coisa me fazia crer que havia "política" aqui metida.

Comigo foi ao contrário, os Ventos de Abril, afastaram-me de amigas de infância que, nunca mais, voltei a ver.

Tretoso Mor disse...

Si,

Grandes atrocidades se cometeram no passado!...

Recordo-me de o meu pai contar que um Amigo dos meus pais, pessoa com uma personalidade e um carácter muito fortes, hoje uma das principais figuras da vida eclesiástica portuguesa, numa das visitas frequentes que fazia a nossa casa, lhe ter pedido para que o meu Tio, bastante mais novo que a irmã, minha mãe, evitasse ler determinados livros no café. Ele estaria já a ser observado, apesar da sua "tenra" idade, 16 anos. O meu Tio, chegava às estantes lá de casa, vastas em literatura e pedia emprestado. Como cultura, entre outras coisas, nunca se negou lá em casa, e aproveitando o seu entusiasmo e gosto pela leitura, claro que levava o que ia pedindo. Contudo, havia alguns livros, sobre os quais era avisado para ter cuidado com a sua exibição em público. era o caso daquele, "O Crime do Padre Amaro". No entanto, a juventude e a incosnciência do "perigo", levaram-no a por em risco o meu pai, que seria o próximo visado, por dedução, das "observações alheias".

Tretices incompreendidas para Si.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Afinal o mau da fita era o pai da Margarida. Não estava à espera deste final, mas não me surpreende, porque naquele tempo era mesmo assim que as coisas se passavam. A bondade terminava nos "limites" da hipocrisia e do fariseísmo.. Tal como hoje, afinal. A diferença é que já não se perseguem comunistas...
Quem me parece que ficou muito mal na fotografia foi a Margarida. Quantos anos passaram desde este episódio até ao 25 de Abril? Se a amizade era tanta, porque não procurou a amiga? Porque também virou anti-comunista primária, cedendo às influências familiares?
E cá para mi, o paizinho da Margarida deve agora ter um bom lugar na administração de uma empresa ou ser membro do governo do PS!

Si disse...

Velvet,
Não é verdadeira, pelo menos que eu saiba, apenas quis retratar uma época em que o preconceito e a ignorância reinavam e que também não vivi, a não ser por experiências de outros. O facto de as amigas não se terem voltado a encontrar também não será de todo impossível, visto que nessa altura, muitos foram os que para fugir aos rótulos, emigraram e não voltaram.
De qualquer forma, espero que tenha gostado...
Beijinhos azuis

Si disse...

António,
Exactamente. Mas, infelizmente, deve ter havido muitos casos assim.
Obrigado pela presença.

Si disse...

Patti,
Não é não. Inventei-a, mas os exemplos da nossa História inspiram estórias destas, não é?
Espero que tenha gostado.
Beijinhos arejados

Si disse...

Gi,
Exactamente. Também quando os ventos de Abril sopraram, houve rajadas que feriram, como qualquer ciclone que atinge indiscriminadamente por onde passa.
E é isso que eu critico, em qualquer época: o fanatismo e a ignorância.
Obrigada pela paciência.
Beijinhos

Si disse...

Tretoso
Obrigada pelo seu comentário.
Tal como disse às outras 'vizinhas', foi uma estória da nossa História, que, embora inventada, pretendeu criticar todos os exageros que o Homem comete em nome de qualquer coisa, antes ou depois de Abril.
Prendinhas da treta.

de dentro pra fora.... disse...

Também eu achei que o motivo seria outro...
Fez-me lembrar um livro que li(penso que muitos de nós o leu)e que nunca esqueci "O diário de Anne Frank" confesso que na altura mexeu muito comigo, ainda hoje sempre que passa algum filme na TV sobre o assunto me incomoda ver como foram tratadas aquelas pessoas, só porque tinham uma crença diferente.

Si disse...

Carlos,
Apontei cronologicamente esta história para 1964, 10 anos antes do 25 de Abril, e para que ambas tivessem entre os 14 e os 15 anos. Ainda hoje, nestas idades, as 'melhores amigas' deixam de o ser rapidamente, mesmo que o afastamento não seja imposto. Além disso, proveniente de uma família abastada, o futuro de Margarida seria a Universidade, o que a ocuparia e manteria debaixo da alçada dos pais, pelo menos mais 7 anos, demasiado tempo e influência na vida de uma rapariga daquele tempo. Por outro lado, Sara, como tantos outros, poderá ter sido obrigada a emigrar....como vê, todos os cenários são possíveis, até esse, em que o paizinho se tenha tornado uma figura proeminente na vida política actual.....

Si disse...

De dentro para fora,
Também li esse livro(realmente, devem ter sido poucas as pessoas que não o leram), mas, felizmente, as proporções não tiveram, neste país, a mesma dimensão, embora, como já disse, qualquer que seja o tamanho do preconceito e da ignorância, é sempre de lamentar.
Obrigada pela presença.
Beijinhos.

Patti disse...

Ah claro qeu gostei Si. esta parte dos pormenores quentes do regresso ao carinho do lar, parece que estamos lá para receber a Margarida.

Mas já viu que pode seguir a história? Não era uma amizade grande a das duas? E a Margarida fica-se?

Já estou a puxar por si, Si. pense nisso.

Miepeee disse...

Parece que cometi uma injustica para com o professor. Oh senhor professor desculpe os meus maus pensamentos. No entanto explusar a Sara tambem nao foi bonito, mas naqueles tempos diazia-se que os comunistas comiam criancinhas.
o pai da Margarida era uma grande peca, dar com a lingua nos dentes para nao lhe chamar outra coisa tambem nao e muito digno.
Bela historia, prendeu-nos aqui 3 dias muito bem prendidos.
Venham mais historias e sempre um prazer ler.
Beijinho.

Si disse...

Miepeee,
Coitado, ele foi só o mensageiro...
E eu gostei foi da companhia que estes 3 dias trouxeram à minha casa.
Foi um prazer receber todos.
Beijinhos kilométricos

Si disse...

Patti,
Talvez não seja má ideia, mas não é que já me descaí com os possíveis futuros ali com o Carlos???
E agora? Aonde é vou arranjar outros??
Ó madrinha, empreste-me aí o seu telescópio, aquele por onde viu Jubilo, a ver se resulta, sim??
Beijinhos arejados

Gi disse...

Sabe que o meu nome do meio é Margarida? :D

Si disse...

Gi....
Não me diga!!....
Meu Deus, depois de tantos anos, encontrei-a finalmente!!!
Eu sou a neta da Joaquina, sinhores!!
rsrsrsr

1/4 de Fada disse...

Por enquanto o seu penteado está livre de ovos, Si... acho que ainda tem um longo percurso até correr esse risco, pode dar-se ao luxo de acabar as suas histórias como bem lhe apetecer! Ilustrou muito bem uma época em que os portugueses se vestiam de tons escuros, de castanho, cinzento, azul-escuro, muito preto, cores que povoavam também as mentalidades e que permitiam a existência de histórias como esta. Não me parece assim tão estranho que as miúdas não tivessem voltado a encontrar-se. Quantos de nós, adultos, nos afastamos de amigos apenas porque a vida nos ocupa demasiado? Nos anos 60 a autonomia de duas miúdas era muito pouca e passados 15 anos, que rasto é que havia para seguir, caso houvesse vontade?
Seria interessante, apanhando a ideia da Patti, pensar como é que terá evoluido a Margarida, porque enquanto o destino da amiga me parece claro, já o dela dá "pano para mangas"...
Valeu a pena esperar e desembrulhar lentamente este presente.

Si disse...

Fada,
Obrigado pela visita e pelo comentário. Vou pensar nisso, sim, uma fada e uma madrinha já tiveram o condão de me pôr a cabeça a fervilhar....rsrsrsr
Beijinhos (sem ovos, graças a Deus!!)

Filoxera disse...

Ai, tanto que eu tenho perdido!!!
Não tenho parado em casa e, como tal, não tenho tido tempo de acompanahr o q se passa na blogosfera. Quando tiver uns momentos, virei ler o que tens escrito.
Aproveito para dizer que me lembrei de acrescentar uma nota no último post, já que a história se passou com o meu pai.
Beijos.

BlueVelvet disse...

Si,
claro que gostei, sobretudo da parte da retorno a casa que me fez mesmo "ver" as flores e "sentir" o cheiro dos doces, mas tive a sensação que a história era verdadeira.
Daí a minha pergunta.
Beijinhos de mim para Si

Si disse...

Bem, isso é que é elogio...
Tentei fazer os 'homeworks', quando juntei pormenores que andei a pesquisar, para situar cronologicamente a história, mas nunca pensei que a tomassem por verdadeira.
(Só aqui entre nós, sabe que a foto final é mesmo da turma feminina de 1964 de um colégio nos EUA???)
Ó pra mim com tantos rigores!! rsrsrsr