terça-feira, 21 de abril de 2009

crónica de um tempo impossível # 4


Como previsto, no final do Colégio, Margarida foi para a Universidade, sendo a primeira mulher da família a consegui-lo. Formou-se em Filologia Românica, na Universidade de Coimbra, com média de 18,78 valores e um louvor da Reitoria, que a mãe logo encaixilhou, aproveitando os seus fundos de bordados a ponto cheio, cheios de flores, alguns com pormenores em casca de alho, que pacientemente enrolava e arredondava, secava e envernizava, cosia e pregava a formar cada pétala como se verdadeira fosse. Eram o seu passatempo.
Depois da partida de Sara, fechou-se em si mesma, insistiu em ficar sózinha no quarto do internato, recusou as propostas de ingresso noutros estabelecimento de ensino, frequentados por filhas de amigas dos pais e a imposição da sua convivência, decidiu avançar ao ritmo da sua própria dor, assim, tal e qual, sem interferências externas. O assunto tinha tido um ponto final, de exclamação, até, para lhe reforçar o encerramento, e Margarida, lá no fundo da sua alma, carregava o peso da pedra que lhe tinha posto em cima. Para sempre.
Ficava horas a fio, no sossego do seu quarto, no meio das suas linhas 'Anchor', dos tons dégradé, dos desenhos que imaginava ou retirava da revista 'Modas e Bordados - Vida Feminina', até que chegava a hora do recolher ou a Joaquina a vinha chamar para jantar. Fazia mais do que um de cada vez, para não se aborrecer, para conseguir imaginar outras variantes nos moldes, para colorir com outras nuances os espaços vazios, para fugir com a agulha e com a linha, para outros pontos, mais largos e mais resistentes, para outras paisagens, com flores, sempre com flores, porque era assim que imaginava o Paraíso.
Não foi muito do seu agrado, portanto, ter de regressar a tempo inteiro ao solar onde nascera. Entre as idas e vindas do Colégio e da Universidade, tinha criado o seu próprio espaço, muito interdito e exclusivo, onde só a Joaquina, muito de vez em quando, permitia entrar. Aquela mulher pequenina, roliça e de cabelos brancos apertados num puxo, cuja pele suava a ervas-de-cheiro, alfazema, alecrim, rosmaninho, misturados com pontos de açúcar amarelo, tudo fazia pela sua menina, a única menina da casa, a que tinha ajudado a nascer, antes do tempo, sem dar tempo a que a mãe fosse para o hospital. Tinha-lhe cortado o cordão umbilical e em vez de o deixar secar, mantinha-o rosado, cheio de um sangue que não era seu, mas que amava como se fosse.


Foi Joaquina que lhe falou, um dia, sobre o filho de Augusto Pires, um mancebo de nome José.....

(continua amanhã)



5 comentários:

BlueVelvet disse...

Poucas vezes fiz posts com várias partes, mas as que fiz tive comentários a dizerem-me que iam esperar pelo fim da história.
Confesso que isso me encanitava um pouco, portanto não vou cometer essa injustiça consigo.
Então e o primor deste texto? As cascas de alho secas para parecerem verdadeiras, e a agulha e a linha a fugirem para outros pontos, talvez o Paraíso...O cordão umbilical ainda com o sangue rosado...
Pormenores de uma escrita que me faz vir aqui, inexoravelmente, todos os dias.
Beijinhos de mim para Si

Antonio saramago disse...

Olá!Antes de mais quero pedir desculpas pela acentuada ausência ao teu tão adorado cantinho, mas são consequências de um periodo de vida muito atribulado pela negativa.
Sobre este post e segundo me parece, a Margarida era uma menina muito reservada, guardava para si praticamente tudo o que á sua vida dizia respeito e muito vagamente lçá ia desabafando com a sua Ama a Joaquina.
Joaquina tudo tentava para que Margarida fosse mais liberal, que tentasse sair do ambiente familiar talvez um pouco oprimido não?
Então existia um José, por quem Joaquina tinha admiração e o estava a tentar emcaminhar para o coração de Margarida será?

pedro oliveira disse...

fico a aguardar.estou a adorar.

1/4 de Fada disse...

Então resolveu continuar a hisrória, a pedido de várias famílias... que bom. E que grande ideia acabá-la no sábado! Adorei a descrição do bordado, fez-me lembrar a lentidão com que os dias passavam quando era criança. e sabe que me lembro muito bem da revista "Modas e Boradados"? Havia uma colecção delas em casa da minha avó, algumas bem antigas.

Patti disse...

Pronto já vim ler o relato de hoje e até já tirei umas notas sobre bordados, pontos e linhas.

Tudo muito perfeitinho e sensível como de costume. Aguardo o seguinte.

Beijinho apresado, Si.