quarta-feira, 29 de abril de 2009

crónica de um tempo impossível - Final inspirado pela Gi


Enquanto a família se mudava de bagagens, que as armas por cá ficavam, Margarida mudava, literalmente, de bagagem e de vida.
Tendo sido a primeira mulher na família a conseguir um curso superior, foi também a primeira a trabalhar fora de casa. Tornou-se professora de Português e Francês, na Escola da Vila, passando a fazer parte das grossas fileiras da função pública de então, garantindo, assim, o seu sustento e o de Joaquina.
Entre o trabalho e os braços da fiel ama, para os quais voltava todos os dias, Margarida foi enxugando as saudades da família, cujas notícias chegavam a conta-gotas, dando conta que as incertezas ainda eram muitas, naquelas vidas viradas de pernas para o ar, e em que a contagem decrescente do tempo terreno dos pais, impunha que eles voltassem ao princípio de tudo.
Entretanto, na Vila, os ânimos iam acalmando, as razões gritadas, transformadas em palavras mais serenas, algumas até, já só se ouviam encolhidas em murmúrios de vergonha pelos excessos. Afinal, nada se conseguia sem trabalho árduo, e a pouco e pouco, cada um foi retomando as suas tarefas diárias, numa terra que só lavrada dava de comer a quem tinha fome.
Passaram 3 anos.
O Solar, agora deserto, corria o risco de ficar ao abandono, quando Margarida recebeu a notícia que seu pai ficara gravemente doente, pelo que deveria regressar a Portugal. Com a ajuda de Joaquina e de José, tentou repor o brilho na casa, lavando, esfregando e pintando, apagando, enfim, os vestígios de recordações pouco felizes que deveriam dar ao pai o sossego merecido. Voltava apenas com a mãe, porque os irmãos já tinham traçado destinos diferentes e nadavam agora à vontade nas águas tépidas dos negócios do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois do seu regresso, morria, não sem antes ver Margarida casar com José.
A relação de ambos tinha começado pouco depois da ocupação das terras. Tendo sofrido na pele os amargos da prisão, José era um homem amadurecido à força, que sabia que os extremismos, em qualquer direcção, só levavam à desgraça. Foi ele, portanto, que fez a ponte entre Margarida e os trabalhadores, gastando horas infinitas no diálogo e na negociação, tomando decisões consertadas e organizando o trabalho que não podia deixar de ser feito. Ganhou o respeito e a admiração de todos, revelando uma faceta intrépida de homem justo e ponderado, por quem Margarida acabou por se apaixonar ou, quem sabe, por depositar o seu desejo de segurança, já há tantos anos roubado.
Nunca tiveram filhos.
Para Margarida, os seus filhos foram sempre os seus alunos, filhos e netos dos trabalhadores da quinta, a quem dedicou por inteiro a sua vida. Hoje, apesar de já reformada, e com José responsável pelos destinos da Autarquia e das terras, Margarida ainda dá explicações em casa, numa sala especial do Solar, apelando a toda a sua infinita paciência para a falta de interesse dos alunos, tal como fazia quando bordava intricados moldes. Manteve-se simples e intocada, amiga de ajudar e de ensinar e triste, cada vez mais triste, com a ignorância do povo que resolveu não abandonar, enfrentando, todos os dias, outras revoluções, neste Ensino que tanto ama.

Adenda: Os conteúdos deste post e do infra publicado, são interpretações pessoais das ideias enviadas por mail pelos bloggers identificados nos títulos de cada um.

8 comentários:

Antonio saramago disse...

Ando ás aranhas com isto tudo, na postagem anterior, dizes que Margarida teve dois filhos de josé e agora aqui nesta dizes que nunca teve filhos, então em que ficamos?

Gi disse...

É meu dever esclarecer que o título mais correcto seria: crónica de um tempo impossível - Final inspirado naquilo que a Gi escreveu como final.

Gostei, deste seu final Si.

Si disse...

António,
Compreendo que deva ser confuso se não seguiu, desde o início, o fio condutor destes posts.
Eu explico.
Iniciei esta história pouco depois de ter começado o blog, que teve um final, ainda na juventude de Margarida.
Nos comentários correspondentes, desafiaram-me a continuar a história da sua vida, o que fiz, durante a passada semana.
Dado o interesse que este conto suscitou, também na passada semana, desafiei a vizinhança a imaginar um final.
Publiquei o meu final no sábado, 25 de Abril, e esta semana, estou a publicar os finais alternativos, imaginados por outros bloggers, pelo que, cada um, deu um destino diferente à vida de Margarida.
Amanhã, voltará a sair outro, completamente diferente!
Esclarecido?

Si disse...

Gi,
O final é seu. Eu só fiz o que faço sempre quando sigo uma receita: junto mais uns quantos ingredientes, para o resultado ser o mesmo, mas com travos apaladados de um tempero impulsivo. : )

Antonio saramago disse...

Obrigado pela explicação a esta cabecinha sem jeito.
Então o teu final, foi de que ela teve dois filhos.
Este final sem filhos foi da autoria da GI, já tou a perceber!!!!
Quer dizer que também eu poderia dar um final, mas não quero, porque ainda saá uma desgraça do caraças...

BlueVelvet disse...

Gostei muito deste final, mais realista, penso eu.
Não deixa de ser uma Crónica de uma Vida Impossível...
Beijinhos de mim para Si

Luísa disse...

Querida Si, estive fora na altura em que arrancou com a «novela» e não acompanhei os primeiros episódios. Mas vejo que a coisa ganhou um grande «fôlego». Vou aproveitar o meu caseiro 1.º de Maio para, com tempo, empreender a leitura atenta que se impõe. :-)
Um beijinho.

Patti disse...

Um final muito possível e realista, onde as repercussões da revolução em muitos factores da sociedade actual, mesmo após 35 anos, estão ainda bem presentes e continuam muito marcantes.

Todas as mudanças trazem vantagens e prejuízos, não são perfeitas porque são feitas pelos homens e esta não foi excepção.

Injustiças foram cometidas e outras tantas foram repostas e esperava-se que o povo aprendesse, mas parece que não. Foi há tão pouco tempo e já se esqueceram de tanto.