terça-feira, 17 de novembro de 2009

rótulos


Maria Constância era uma rapariga muito popular, daquelas que fazem nelas os rapazes atentar, alegre e expressiva, excepto quando se quedava aérea e reflexiva, de olhar tristonho e ausente, pouco compreendido por muita gente.
Nada lhe faltava, nem de nada precisava, mas rapidamente passava de pensamentos entusiasmantes a tristezas galopantes, deixando desconcertadas as suas amizades mais chegadas, que assistiam, com uma consternação sentida, ao rolar daquela vida, num acidentado tropel, desgovernado e louco carrocel.
Depois de muito ponderada, a decisão foi tomada: Maria Constância por todos iria ser levada a um médico reputado, de diploma na parede ricamente pendurado, que depois de muito a remirar, na hora lhe diagnosticou um distúrbio bipolar.
Ai, meu Deus!! logo a mãe se lamenta, de doença tão peçonhenta. Que será da menina quando eu me for?? lembra ela com horror. A culpa é tua, mulher, que não a soubeste educar! diz o pai a gritar, se fosse eu, bem estaria, e nunca na vida, a tua filha seria uma doida varrida!
Ó gente!!! gargalhou Maria Constância, inconsequente, deixando todos em suspenso; se calhar eu mereço este mal de que padeço, será talvez minha natureza, estar assim, na eterna incerteza, do humor que terei ou das lágrimas que chorarei. Doida varrida? Pois serei, é o jogo da vida, e para ela partirei, decidida, a que de hoje em diante, e em qualquer circunstância, se mude o meu nome para Maria Inconstância!!
E com um gesto teatral retirou-se, o seu público calou-se e ainda hoje se murmura entredentes, que a louca na sua loucura, era mais sagaz que muitos inteligentes.

18 comentários:

Vera disse...

:-)
Boa Noite!

Pitanga Doce disse...

Esta Maria Constância era bipolar? hehehehe

boa noite Si

Gi disse...

Há loucas da casa que abrem mais janelas que outras, daí as correntes de ar.

fugidia disse...

Não são loucos, os bipolares. Mas é uma doença extremamente esgotante, tanto para eles como para quem com eles vive (conheci um grande amigo do meu pai, inteligentíssimo, que era bipolar).
Um bom dia, Si :-)

Patti disse...

CREDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!


Já cá volto quando tiver recomposta!

Si disse...

Vizinhança,
Penso que será evidente, mas para que não haja dúvidas, aqui fica o esclarecimento de que este texto serve para parodiar os esteriótipos e os rótulos que se aplicam às pessoas que saem da norma social, na maioria das vezes por puro desconhecimento e ignorância.
A diferença nem sempre é real, apenas não compreendida.

Justine disse...

POis é Si, a tolerância e a procura de conhecimento deveria fazer parte das nossas preocupações. Mas é mais fácil rotular e ostracizar...
Um abraço:))

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Vou a correr mostrar este post à Brites!

Luísa disse...

Tudo na vida muda tão rapidamente que a inconstância é, cada vez mais, a única forma de preservar a coerência, Si. Pensar ou reagir ao turbilhão sempre com a mesma cara ou com as mesmas opiniões bordeja, frequentemente, a teimosia, senão a estupidez. :-)

paulofski disse...

Aplicamos rótulos, mesm que sem querer, a torto e a direito. Mas afinal quem é que é normal, sim quem!?

pedro oliveira disse...

Jesus senhor!!!
bjs

BlueVelvet disse...

Excelente este texto, como de costume, e do meu ponto de vista muito a propósito.
Um dia destes, lá no Velvet logo verá porque digo isto.
Fez-me lembrar "Os loucos de Lisboa"
Beijinhos de mim para Si

Dulce Braga disse...

De louco todo o mundo tem um pouco.:)

Patti disse...

E muitos de nós o seremos um pouco sem saber.

Eva Gonçalves disse...

Muito bom texto.Adorei. Parabéns.

Lúcia disse...

Et Voilá!
Todos temos um pouco...

Turmalina disse...

Me irrita buscar culpados principalmente por algo que mal sabemos como funciona.Acontece e pronto.Ou melhor, nasce-se assim e pronto.
Existem inúmeras alternativas para conviver com pessoas com o que chamam de distúrbios comportamentais.
A primeira é amá-las incondicionalmente e a segunda aprender a ser mais tolerante.
Daí prá frente tudo fica mais fácil e nem é preciso encontrar culpados.Culpa, culpa, culpa...ô palavrinha mais ingrata...
A vida acontece num instante e se a pessoa é um pouco mais isso ou aquilo no final não vai fazer diferença.
E respeitem a inconstância alheia :o)

Filoxera disse...

Belo exemplo da crendice/preconecito, este texto com ritmo próprio e rima ritmada.
Beijinhos.