segunda-feira, 2 de novembro de 2009

parasimpattias # 1


Exercício: Um velho está em pé numa paragem de autocarro, com uma bengala na mão e um folheto na outra. O dia é frio, chuvoso e triste.

(Narrador na 1ª pessoa)

Cada vez mais me custa subir esta rua. Ao fim de tantos anos, parece agora refilar com o peso dos meus passos e diverte-se a soltar-me armadilhas, uma pedra eriçada aqui, um charco de água acolá, prontinha para me pregar uma rasteira traída ou uma escorregadela fatal. Mas não lhe quero dar essa alegria. Não dou. Não, por mim, ainda vai ter muito que me aturar. Velhos são os trapos e eu sou de ferro; como diz a Dra. Lurdes.
Raio destes ganapos! Eu bem lhes mostro os dentes, aviso-os que chego, exibo os predicados que me deram no berço, mas nada os demove de ocupar selvática e ostensivamente os bancos da paragem, em exercícios patéticos de paixões frenéticas que, invariavelmente, terminam nas férias grandes. E invariavelmente, fico de pé. Como as árvores. Mas sem morrer, graças ao Senhor.
E à Dra. Lurdes.
O 308 demora sempre a esta hora. Ainda para mais com o tempo assim, que me pode resfriar.
Lá atrás continuam a escalar no tom e no atrevimento, como se o mundo acabasse amanhã, e urgisse dar continuidade à espécie humana na sua mais reles herança. Fosse eu que mandasse e afivelava-lhes o cinto no lombo, para terem respeito, as mulheres - mas quais mulheres, estas, são miúdas de bibes ainda suados de leite, metidas a meretrizes - devem ser dignas de reverência à sinuosidade helénica das formas, à harmonia cadenciada do andar, à generosidade de colos mansos e perfumados.
Como o da Dra. Lurdes.
Ainda sinto o cheiro dela neste folheto. Ainda sinto a maciez das mãos que mo entregaram. Tão presente, como de cada vez que me envolve o antebraço no aperto das tensões. Ou me deixa entrever o desenho dos seus seios maduros, quando me ausculta.
Tivesse eu coragem, tivesse eu certezas, e seguiria os conselhos aqui escritos: tomaria de bom grado esta droga para que me deixasse tão vigoroso como esta minha bengala, de bandeira desfraldada sempre que tocasse o hino, sempre que lhe pudesse tocar e a fizesse vibrar, no contratempo do tempo que ainda tenho para lhe dar, e, juntos, compormos a sinfonia da nossa solidão. Que deixaria de o ser.
Dra. Lurdes, minha querida.

Olha, lá vem o 308, espero que este paspalhão não pense que eu não reparei que chegou depois de mim, deixa lá pôr a bengala a jeito, eu estou primeiro, ouviu?

Qualquer semelhança entre este texto e o que foi escrito aqui, não é mera coincidência

12 comentários:

salvoconduto disse...

Para além de velho o tipo tá ceguinho, o 308, vai lá vai! Há muito que o 308 deixou de passar por aí! Olha queres um conselho? Atravessa a rua e na esplanada vais encontrar uma loira a tilintar a colher na chávena de café, vais ver que ela te convida para te sentares e trocares uma prosa. Até é bem capaz de te dar boleia. Que raio, para onde é que tu querias ir no 308?

de dentro pra fora.... disse...

Pois desengane-se quem pensa que eles já não sentem os anseios de "da carne"...ai Drª Lurdes se a Srª sabe disto ainda dá em casorio.

PS: verifica o link da vizinha, dá errado(ou será que foi só a mim?)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

A Drª Lurdes dá-lhe o folheto do Viagra e depois fica a gozar o panorama, num café em frente à paragem de autocarro? Por isso é que o SNS não funciona...

Gi disse...

Isto deu mas é a febre das colaborações. É o que é!
E eu ali na paragem a matar o tempo.

Luísa disse...

Nem quero saber o que consta do folheto, Si. Parece-me que deve ser da natureza da cena que se desenrola nas costas do narrador… poucas-vergonhas!
Gostei imenso de ler, Si. Imagino que seja mesmo assim! :-D

pedro oliveira disse...

Pelos vistos só a placa da "paragem" é que não tem manutenção....

Patti disse...

Eu logo vi que aquele folheto, visto e revisto, só poderia ser música para os ouvidos do nosso velho!

paulofski disse...

Ó senhor, avie lá a receita ou ainda lhe dá uma coisinha má, um beri-beri ou uma síncope, assistindo a filmes desses de bolinha vermelha na paragem do autocarro. Vá lá e tenha cuidado com a Dra. Lurdes, não se emotive muito na próxima consulta.

Justine disse...

Ai que poderosas são estas paixões serôdias! Até pôem os outros a ouvir música:))

(divertido "exercício", muito bem conseguido pelas duas!)

cristina ribeiro disse...

O que ele deve ser carinhoso, Si! Merece cortar com a danada dessa solidão. Lindo.

Violeta disse...

E assim se engana a solidão...
bjocas

Filoxera disse...

Excelente! Bom tema, melhor crónica.
Um beijo.