segunda-feira, 9 de novembro de 2009

cerimónias


Nos pés delicados de gueixa, a chinela bordada rebrilhava e enfatizava a sua pequenez. Fora por eles que Liao Xing se tinha apaixonado, no dia em que, sentado no chão do salão de chá, ela se aproximou para o servir.
Regressou uma, duas, três, dez vezes, para a observar de vários ângulos, decorou os gestos cerimoniosos, as indeléveis imperfeições da pele caiada, o contorno preciso do coração na boca vermelha, o olhar submisso, que chegou a surpreender selvagem, quando as visitas se tornaram rotineiras na vida de ambos.
Nunca trocaram uma palavra. Falavam pelos rituais, as mesuras e os pormenorizados salamaleques estudados, repetidos dia após dia, ano após ano, descobrindo-se tiques e significados, à velocidade sempre recatada dos pequenos passos, apertados pelo quimono.
Um dia, ele descobriu-lhe uma ruga, no outro, um fino cabelo branco debaixo da rígida cabeleira, no seguinte, um leve tremor na mão que segurava a taça.
À saída, olhou para trás e tentou contar os dias, mas tinha-lhes perdido a conta, reviu-se no reflexo de um espelho, com a imagem de um velho que não conhecia.
Entrou numa loja de sombrinhas e comprou-as todas.
Uma, por cada passeio que a vida lhes tinha negado.

11 comentários:

Gi disse...

Senti-me transportada, com p´zinhos de lã, aos livros de Peral Buck. Leu-os?

Antonio saramago disse...

tristeza de vida!!!!

Justine disse...

Fulgurante e comovente texto, Si. Com a delicadeza dos gestos orientais. Música a condizer!

Luísa disse...

Si, um texto delicado, uma música delicada, o retrato de um Oriente na sua expressão mais delicada. Lembrou-me do livro e filme «Memórias de uma gueixa», embora estes dêem conta do que custa chegar a essa «delicadeza». :-)

CPrice disse...

que doçura .. !

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

E de repente, senti-em transportado até ao Oriente que ainda vive dentro de mim.

cristina ribeiro disse...

A mesma leveza atraente dos passos da delicada gueixa.

kattysonhadora disse...

Imagem, som, palavra numa mistura arrepiante de agri-doce que, confesso, me tocou bem fundo.
Gostei de tudo, Si :-)

Rosa dos Ventos disse...

Delicado, triste e comovente o teu texto como a tua gueixa e o seu apaixonado!

Abraço

Borboleta disse...

A vida é feita de pequenos gestos e momentos...uns passam por serem repetitivos, outros marcam-nos...e assim de forma suave e delicada o tempo voa entre as pessoas e as suas rotinas. Ninguém dá conta, só mesmo quando o reflexo nos aparece naquele momento mais inesperado.
São vidas e vivencias, umas tristes, outras apenas já passaram...

Um a parte:
Somos benvindos e bem recebidos muito obrigada! ;o)

Bjs

fugidia disse...

Gostei demais, Si!
:-D