sexta-feira, 6 de março de 2009

mulheres do mundo # 4




Acabei agora de estender a roupa que lavei à mão, no lavatório da casa de banho. Tive que esfregar bem as camisolas de fato de treino da Maria, para lhe tirar as nódoas do vomitado. Desde há uns meses que é sempre assim. Não come quase nada, recusa alimentar-se em condições, apesar das minhas súplicas e da minha insistência, forço um pouco mais e de lá de dentro, em esguicho, volta a sair tudo o que lá tinha entrado. E eu limpo. E não me zango. E volto a tentar que ela coma uma colher mais.
O nosso beliche, à noite, entra em convulsões frenéticas. São os pesadelos dela, os gritos, os suores, os despertares de olhos arregalados e respirações descontroladas, o reviver de outras noites, de outros pesadelos não sonhados. E eu seguro-a. E acalmo-a. E digo-lhe que vai ficar tudo bem. E volto a tentar que ela adormeça em sossego.
Também não quer ir à escola. Levanto-a todos os dias, à mesma hora, dou-lhe banho, escovo-lhe o cabelo, ponho-lhe os seus travessões preferidos, faço um rabo de cavalo ou uma trança metida, arranjo-lhe a mochila, com os cadernos, os livros, o estojo cheio de lápis de cor que há muito tempo já não usa para colorir seja o que seja, porque agora tudo ficou cinzento e tento que tome o pequeno almoço. Vomita mais uma vez. E suja a roupa. E suja as cuecas, porque se urinou pelas pernas abaixo, quando se olhou no espelho e viu que estava pronta para sair. E eu mudo-lhe a roupa. E lavo-a de novo. E não me zango. E abraço-a. E choro com ela. E digo-lhe que ela é a minha menina. E peço-lhe perdão.
Mesmo que ela quisesse ir, não poderia ir à escola.

Não posso arriscar a que alguém encontre este nosso abrigo.




'No que diz respeito aos dados de identificação da vítima, que recorre aos serviços da APAV, a tendência mantém-se inalterável uma vez que continuam a ser, maioritariamente, as utentes do sexo feminino (87,1%) as vítimas mais visadas. [...] De forma inversamente proporcional, no que diz respeito às vítimas, os autores de crime são em mais de 85% das situações do sexo masculino.'

Dados retirados daqui

15 comentários:

de dentro pra fora.... disse...

Fiquei sem palavras..

salvoconduto disse...

Os dados da APAV pecam em muito por defeito porque é impossível contabilizar os casos que as famílias escondem, ou aqueles outros que são escondidos por medo.

Si disse...

Salvo,
Estes dados são de 2008 e feliz ou infelizmente os nrs. de casos contabilizados já são muito superiores aos dos outros anos....
Ao menos que se denuncie!

Fenix disse...

E eu estou também a chorar...
Com as tuas palavras..., com o que contas e por saber que INFELIZMENTE não é ficção...

Não tenho mais palavras...

Vekiki disse...

:( no words
too much pain

Tretoso Mor disse...

Si,

Já uma vez no blog da Patti falei sobre este assunto.

A violència doméstica está a aumentar, sendo actualmente considerável também os incidentes om homens como vítimas.

É algo de incompreensível na sociedade em que vivemos.

Mas, se os audltos têm meios de defesa, as crianças estão completamente indefesas.

Com as crianças, é INADMISSÍVEL que os agressores continuem a vaguear impunes, perante a impassividade da justiça!

Pior, perante a irraionalidade das decisões dos juízes como um caso em que o agressor foi mandado para casa, em prisão domiciliária!!!...

Imagine-se o resultado!

Tretices indignadas para Si

Patti disse...

O número de denúncias aumentou este ano, o que é de salutar. Pelo menos houve mais gente que venceu o medo e a vergonha e teve coragem de denunciar.
Espera-se que a aplicação da lei seja eficaz e proteja quem necessita.

Devaneante disse...

Esta é, infelizmente, uma triste realidade, certamente mais grave que aquilo que as estatísticas oficiais nos mostram. O combate a esta realidade depende de todos nós, e esse combate é urgente!

Antonio saramago disse...

Será que haverá um dia em que isto acabe, ou pelo menos diminúa?
Tu, como uma entendida na matéria achas que é possivel?
Pois eu cada vez acredito mais no Aumento...

Si disse...

António,
Felizmente, o meu entendimento nesta matéria não é pessoal, mas é claro que tenho olhos para ver e ouvidos para ouvir e esta realidade não me é, de todo, indiferente.
O aumento de nr. de casos reportados só tem uma vantagem - o saber-se, o ter-se conhecimento de, o perceber que em famílias onde tudo se escondia, hoje já há coragem para denunciar.
Num mundo ideal, este número seria igual aos casos existentes na realidade e assim poder-se-ia combater estes crimes. E também teria que haver coragem, para, depois, punir, exemplarmente, os responsáveis.
Até lá, só podemos mesmo denunciar e sentir a revolta...

Ka disse...

Si,

Ao ler estas palavras fica um enorme nó na garganta. Ficamos a perguntarmo-nos como é que isto acontece e porque acontece...nada serve de justificação...

Mas pior do que isso é (e agora falo por mim) termos um estado que se desresponsabiliza na medida em que na maior parte das vezes os culpados ficam impunes e em contacto com a vítima.

Beijinho e bom fim-de-semana

Gi disse...

Pelo menos agora desde que é crime público cada vez mais casos destes vêm a luz e mutas vítimas vão sendo resgatadas, pelo menos fisicamente, que os danos psicológicos acho que são para a vida.
Uma cosa boa é que nos Registos Criminais as condenações vão passar a vigorar por 20 anos (parece que é assim).

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

As mulheres que sofrem em silêncio tornam-se, involuntariamente, cúmplices. No entanto, o número de casos de mulheres que apresntam queixa sem que as autoridades reajam como deviam, também convidam ao silêncio. E depois há aquelas declarações de gente da Igreja e as decisões de juízes, que demonstram que há ainda um caminho muito árduo a percorrer para acabar com estas situações.

paulofski disse...

A violência, física e psicológica, contra mulheres e crianças tem de ser denunciada. Um ambiente doméstico e familiar violento só faz amarfanhar, esconder, isolar.

Pitanga Doce disse...

Quando leio casos assim (e ainda esta semana ocorreu algo gravíssimo no Norte do Brasil)fico pensando se não foi sempre assim? Se não existiram sempre ao correr dos anos neste mundo de meu Deus, bestas-feras que arrasaram com a´infância de crianças quer sejam em casa ou nos orfanatos ou nas ruas? Porém agora há como se saber porque existem meios de comunicação que não existiam há trinta ou mais anos atrás?

Quantas crianças sofreram caladas e choraram sozinhas suas vergonhas e medos? E ainda choram em lugares aonde os jornais não chegam?

Isto é tão triste meu Deus! Às vezes duvido que o Anjo da Guarda exista.