terça-feira, 3 de março de 2009

mulheres do mundo # 1



Uma paisagem branca, totalmente branca, imensamente branca, rodeada por um intenso azul gelado. O silêncio, a imperar nos sentidos adormecidos pelo frio, tanto que, num piscar de olhos, as pestanas congelam e colam-se. Uma aldeia perdida no branco, uma comunidade, uma família à espera do regresso dos homens, que a busca por alimento levou ao mar, na caça à baleia.
Inusiq brincava com os seus irmãos, enquanto a mãe, atiçava a fogueira para espevitar o lume e apressar o derreter do gelo e o ferver da água. Embrulhados em brincadeiras infantis, cabeças, mãos, pés e casacos felpudos, formavam uma bola que dificilmente deixava destrinçar o indivíduo correspondente a cada extremidade. Risos, corridas, bocados de neve arremessados, davam vida ao cenário inóspito, aqueciam o clima e vedavam a entrada aos ventos do isolamento.
As outras mulheres cosiam peles com agulhas de osso, retiradas de carnes que não coziam, ricas em ácidos gordos e congeladas em fossos comunitários, escavados quatro metros abaixo do solo; faziam casacos, mantas e outros agasalhos com pelo de focas, mortas segundo a tradição inuíte, a fazer enraivecer qualquer activista dos direitos dos animais, a resguardar a sobrevivência das famílias.
Inusiq parou de brincar. A mãe chamava-a. Apesar do sol estar alto, era altura de ir dormir. Pediu à mãe para lhe contar de novo a lenda da Deusa Sedna, a Raínha do Décimo Planeta e as suas aventuras com a gaivota que a enganou, o mar que a engoliu e o sangue que fez aparecer novas espécies de peixes e animais marinhos. Ela fez-lhe a vontade e no final lambeu-a com carinho.
Deixou-a adormecer.
Os homens tardavam e só deviam chegar com a Aurora Boreal, quando no céu, os espíritos dos antepassados se haviam de mostrar, numa dança de cores que mostrava o Inferno, o local gelado que as almas inquietas iram ocupar.

9 comentários:

Devaneante disse...

É admirável essa capacidade humana de se adaptar a quase todos os tipos de meio ambiente, como é admirável a sua diversidade de culturas, de costumes e de lendas.

Patti disse...

Até eu que sou do frio, fiquei arrepiada (no bom sentido) com o realismo da sua descrição.

paulofski disse...

Instinto de sobrevivência, de adaptação ao meio ambiente, espírito maternal, passagem de testemunho, vida selvagem, vida humana, o alimento como bem superior, em todos os povos deste mundo a mulher é o pilar da família.

Gi disse...

Uiiiiiiii que frio, por isso é que eles têm aqueles beijinhos à esquimó, são tão quentinhos!

Si disse...

Vizinhança:
Este é o 1º, de uma série de textos dedicados à mulher, cujo dia internacional se comemora no Domingo, como sabem.
Vou querer muito ter as vossas opiniões sobre vivências diferentes em tempos e espaços diferentes, dos elementos do sexo feminino que inventei para protagonistas.
Beijinhos

Antonio saramago disse...

Então eu vou ficar de olho pôsto por aqui, á espera dos desabafos das Maravilhosas Mulheres que por aqui passam e deixam as suas Belezas.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Começa da melhor maneira este seu "elogio da mulher". Fico a aguardar, com curiosidade, os próximos capítulos. No dia 8, também postarei sobre o assunto, embora ano passado quase tenha esgotado o tema. No entanto, sobre a mulher, há sempre algo mais a dizer.

BlueVelvet disse...

As mulheres, em qualquer parte do mundo são o esteio da família, e quase sempre as que esperam.
Muito interessante esta série de artigos que se propõe fazer.
beijinhos de mim para Si

pedro oliveira disse...

Vi há tempos um documentário da 2 sobre nómadas numa região da antiga URSS que divide Ásia e Europa, foi um documentário arrepiante em termos de capacidade de adaptação das pessoas e de sobrevivência com quase nada.