terça-feira, 30 de dezembro de 2008

liberdade


O vapor saía-lhe em bafaradas grossas e condensadas, expelidas por narinas bem abertas, que consumiam vários litros de oxigénio de uma só vez. A um ritmo cadenciado, calcava o chão, amortecendo o peso, suspenso na velocidade, e nos pensamentos. Só o ritmo contava, quando corria, de madrugada ou ao pôr do sol, nos caminhos do parque da cidade, nos caminhos da própria alma, que libertava a cada passada. Como sempre, falava para si próprio. Diálogos intensos, em que discutia, argumentava, ponderava e reflectia. E corria contra si próprio. Contra a amargura, contra a injustiça, contra a revolta, contra tudo o que lhe torcia a mente e, naquele momento, deixava de ser. Era só ele e os ventos, a competir, lado a lado, ou um contra os outros, conforme a direcção. O Norte, gelado, tentava contrariá-lo, mas já lhe conhecia o mau feitio. O Sul, empurrava-o, dava-lhe uma ajuda nas subidas e ele agradecia. O Leste aquecia-o, fazendo-o transpirar, e o Oeste refrescava-o, com algumas gotas de maresia. Todos, gostavam de lhe fazer ver a força com que sopravam ou a gentileza com que buliam pequenas folhas e levantavam poeiras. E ele gostava da sua companhia, da sua leveza e dos seus caprichos, quando o envolviam ou o fustigavam, num medir de vontades que lhe dava alento ou lhe cortava a respiração. Os metros, saíam disparados dos seus pés, atirados como uma seta que ia cair longe. Galgava-os com sofreguidão, para logo os despojar, amontoando-os até terem o tamanho de quilómetros, mas nunca ficava satisfeito com os que conseguia conquistar, tal era o riso desafiador que lhe exibiam na perseguição.
Corria, corria, corria até o corpo lhe pedir para parar, até o coração bombear súplicas de descanso e os pulmões arfarem exaustos em bafaradas grossas de vapor condensado. Só aí parava. A verdadeira liberdade era um vício e uma tentação difícil de controlar. Regressar à rotina, um suplício, que só aguentava na expectativa de se voltar a sentir liberto outra vez.


6 comentários:

de dentro pra fora.... disse...

Que bom é poder senti la nem que seja no espirito...não á maior liberdade que essa...

Beijinhos, livres... :))

1/4 de Fada disse...

Nem sabe o que gostei da sua descrição. Não sou nem mais ou menos uma desportista, mas em tempos gostei de correr, e precisamente uma das coisas que sentia era precisamente a liberdade que descreve aqui. Depois soube que há uma grande produção de endorfinas que explica o bem estar que se sente...
Entretanto, tem uma um presente de final de ano no meu blog e uma surpresa que não espera de certeza.
Um bom ano para Si e para os seus e um beijinho.

Coragem disse...

Até eu me senti livre, ao ler este texto.
Venho desejar-lhe uma boa passagem de ano, e que o ano de 2009 seja para "Si" a realização de todos os seus objectivos

Beijinho

BlueVelvet disse...

Que excelente texto.
Até eu senti o vento a bater-me na cara.
Embora,confesso, esta sensação de liberdade só a sinta quando voo de asa delta.
Se este foi o seu último post deste ano, fechou com chave de ouro. Ou de Si!
Beijinhos de mim para Si

Tretoso Mor disse...

Si,

Faço vela, e a sensação de sentir os elementos da natureza e de poder aproveitá-los para me mover, para me divertir, para me sentir outro elemento, é algo indiscritível.

Lindo, este texto.

Patti disse...

Estou com a Velvet,senti o frio gelado na cara. E uma das minhas palavras de 2009, é correr. Oh se é!