quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

dona branca

A D. Branca era uma de quatro irmãs gémeas, mas das falsas, até porque de semelhante nada tinham entre si. Só se fosse o corpo, mas isso até era o menos importante.

Importante, importante, eram os feitios, já que o confronto era total. Nem pareciam irmãs. Uma chamava-lhe fria, a outra deslavada e a terceira que não queria ficar atrás, apelidava-a de troca-tintas. Ora, a D. Branca, que sempre se tinha considerado pacata e neutra, ia engolindo os insultos que as irmãs lhe atiravam, e mesmo o escárnio delas pelo facto de nunca ser convidada para a incrível quantidade de festas a que elas iam, a tirava do sério.

Até um dia.

A propósito destes convites, gerou-se uma discussão, porque, desta vez, a D. Branca tinha sido convidada para um casamento, mas com a cumplicidade da noiva, deixaram de fora o convite para as irmãs, que seriam substituídas por umas parentes. Quando, junto delas, lhes deu a notícia, empalideceram de raiva e extravasaram-se no comportamento.

Como era uma contra três, D. Branca saiu pela porta fora e levou as malas consigo.

Durante meses seguidos, ninguém soube nada dela e foi com total surpresa que a viram regressar, com um brilho muito especial nos olhos, fruto da uma gravidez já adiantada.

Pediram-lhe explicações, indagaram sobre o seu estado de graça, quiseram saber o nome do pai. A nada ela respondeu, pedindo apenas que todas a acompanhassem ao exame de rotina, marcado para essa tarde. Algo contrariadas acederam, mais pela curiosidade do que pelo sentimento fraternal e às 4 horas em ponto, chegaram ao gabinete de imagiologia do Dr. Tela, que logo as atendeu.

Despida da cinta para cima, D. Branca expôs o seu corpo e a barriga já grande. Sentado na cadeira que o punha à altura do écran do equipamento, o médico espalhou-lhe um gel fresco no abdómen e pegou na sonda.

Era uma sonda especial, concebida para gravidezes como a da D. Branca. Contrariando o tradicional formato em 'tê', aquela tinha o aspecto de um prisma invertido, que com toda a suavidade lhe forçou de encontro à pele.

E aí, o milagre aconteceu.

No écran viam-se todos, eram sete os gémeos, todos falsos, distintamente alinhados: o verde, o laranja, o violeta, anil...ah!! olha o vermelho, o amarelo, o azul....iguaizinhos às tias!!

Perfeitos em tudo, e arqueados que já estavam para caber dentro da barriga, o parto ficou marcado para a semana seguinte.

Precisamente no dia em que choveu e fez sol ao mesmo tempo.




(nota de rodapé: este post foi escrito por mim, inspirado num outro que li aqui, feito pela Patti, do blog 'Ares da Minha Graça' - estava agendado há mais de uma semana, mas, como ontem foi um dia especial para ela, aproveito para lhe oferecer, em jeito de prenda de aniversário, a flor e o arco-íris que o ilustram)

29 comentários:

Gi disse...

Belos presentes, sim senhora.
Posso pendurar um pote de ouro?

Miepeee disse...

Bom dia Si, nao vai acreditar quandoa acabei de ler o post olhei pela janela esta um arco -iris lindo. Que pena que eu tenho de nao ter aqui a maquina comigo para poder partilhar esta imagem tao bonita.
A D. Branca teve uns filhos lindos que nos fazem sonhar, pelo menos a mim. Ja com 35 anos nao deixo de ficar maravilhada com o espectaculo que proporciona.
Beijinho.

P.S.: Tal como lhe disse, hoje no meu estamine pode encontrar 3 modelos de comandos, se gostar de algum eu ofereco-o pelo Natal :)

Antonio saramago disse...

Uma Gravidez de ARCO IRIS...TÁ BEM!!!

pedro oliveira disse...

Nda como começar o dia com a paleta de cores a abrilhantar um dia solarengo e frio.

PO
vilaforte

Patti disse...

É o que eu digo, desde o início...não é que temos contadora de histórias e das boas e que ainda oferece arco-íris e flores puras!

O branco é a melhor das cores, pois encerra nele todas as outras, que não se vêem à primeira vista, porque ele as protege.

Todas as coisas têm vida Si. Aprendi-o muito cedo com as histórias do meu pai, do meu avô e com todos os livros de sonho que escreveu o José Mauro de Vasconcelos, o grande autor do mais maravilhoso livro, que alguém já fez: O meu Pé de Laranja Lima, em que tudo lá vive, sente e exterioriza sentimentos, alegrias e tristezas. Mas essencialmente, muita biografia.
Mas os outros dele como ‘Rosinha minha Canoa’, ‘O Veleiro de Cristal’, ‘Coração de Vidro’, ‘Doidão’ e muitos mais, são os marcos mais importantes da minha escrita de hoje, de há bocado, pois só escrevi uma palavra agora mesmo, aos 40 anos. Já as tinha era todas na cabeça, coisas de sagitários, se é que me entende.

Obrigada pelo presente, gostei imenso e mais uma vez parabéns. É tão bom que tenha vindo para aqui.





Ps. Não se esqueça, é de lá ir ao gabinete dar a contribuição de 2008.

Coragem disse...

Parece que essas irmãs esqueceram da pureza do branco, que continua a ser a preferida que vai vestindo as noivas.
E esse mesmo branco, vai suavizando todas as outras cores, dando um toque suave, e calmo.

Adorei o texto.

Beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pois, põe-se a inventar histórias e depois coloca o afilhado em situações delicadas, não é? Perversa!

Si disse...

Carlos,
Eeeeeeuuuuuu???
É tudo verdadinha! Como verdadinha é o Sr. não ser afilhado, mas padrinho!!



(Mas que grande confusão de papeis e posts aqui vai, Jesus...!! rsrsrsrs)

BlueVelvet disse...

A minha cor preferida é e sempre foi o branco.
Mas os arco-iris fazem-me sentir de novo criança e quero logo ir à procura do pote de ouro.
Esta é mais uma das histórias que lhe aconselho a guardar num livrinho para depois contar aos seus netos.
Linda. Adorei.
Beijinhos de mim para Si

Patti disse...

Afilhado? Quem é esse? Algum elemento novo?

Ahahahahahahahahah, que até me engasguei com os 20 bombons de ginga ENORMES, que o meu marido me comprou no dia 8 no Chiado, na casa Pereira....minutos após ter sido seguida!

Si disse...

Patti,
Acho que embaracei o Carlos, sem querer, com a minha brincadeira, e isso fê-lo enganar-se no título de que dispõe, relativamente a este blog e a mim.
É mesmo atitude de cavalheiro, não querer ser mal interpretado pelas damas, principalmente quando envolve encontros imediatos do 3º grau...


Nota breve: Para quem não percebeu nada da história destes 4 comentários, façam o favor de se dirigir à coluna da esquerda e clicar em "Ares da Minha Graça" e "Crónicas do Rochedo", sim? Ficarão esclarecidos.

Filoxera disse...

Lindo. E eu que tanto procurei uma foto de um arco-íris, há tempos...
Beijos.

Si disse...

Gi,
Pode pendurar o pote de ouro, para ver se há alguém que o encontre, finalmente...
E pode levar também uma flor, há vizinhos a quem nada se nega, porque arco-íris eu sei que já tem, mesmo seus, e lindos de morrer.

Si disse...

Miepeee,
Já lá dizia o outro 'não acredito em coincidências' - foi talvez a maneira do arco-íris se mostrar orgulhoso por ter uma mãe assim, quem sabe...E é lá preciso ter alguma idade específica para se apreciar a Natureza??
Beijinhos

P.S. Já lá fui e comentei : ) : )

Si disse...

António,
A D. Branca é muito especial. Só mesmo a pureza dela permite que se desdobre em 7 outras cores.

Si disse...

Pedro,
Ainda bem que regressou à base e que o fez da melhor maneira, a aproveitar este arco-íris.

Si disse...

Patti,
Do José Mauro de Vasconcellos, confesso que só li mesmo o 'Meu Pé de Laranja Lima', já há uns anos valentes, e depois vi o filme, também já há bastante tempo. Adorei a história e a emoção de cada cena.

Relativamente à escrita, também sempre gostei de escrever, mas só agora a registo, neste blog. Escrevi o meu primeiro conto com 9 ou 10 anos, para uma redacção da escola, onde dei vida a um manuscrito do Eça de Queirós, o meu escritor de sempre, inspirada pela sua própria colectânea de Contos, que li, antes mesmo de qualquer livro dos 5 ou do Colégio das 4 Torres. Um tempo que já tive e que aproveitei bem, lendo tudo o que me aparecia à frente. Agora é mais difícil e por isso me está a saber tão bem esta experiência blogueira. Leio um pouquinho, escrevo um pouquinho, sem sair dos meus locais de trabalho e sem parar de trabalhar, fazendo ao mesmo tempo uma série de coisas, como é apanágio dos sagitarianos. Mas, sobretudo, finalmente, registo o que me sai pelo teclado fora. Bom ou mau, não interessa, é simplesmente meu.

E acredite: se acha que foi bom eu vir para este bairro, eu, por mim, também acho que me sinto muito bem, bem acolhida, por gente educada e com formação e princípios, num mundo virtual, tão distante da realidade do dia a dia.
Obrigada pelo comentário.
Beijinhos

Si disse...

Coragem,
As irmãs eram muito 'primárias'(rsrsr), por isso não podiam pensar de outra maneira...
Ainda bem que gostou.
Beijinhos

Si disse...

Velvet,
Porque o branco é sempre o princípio de todas as cores, não é?
Vou guardar sim, aqui, neste blog, que os meus netos (se os tiver, e chegar a conhecê-los!!!) poderão abrir e ler. Daqui já não saem.
Beijinhos azuis

Si disse...

Filoxera,
Não seja por isso. Pode levar o arco-íris à vontade, porque, como quase todas as fotos deste blog, ela não me pertence. Fui buscá-lo ao www.flickr.com, que também deve conhecer, como boa fotógrafa que é.
Obrigada pelo comentário.
Beijinhos

1/4 de Fada disse...

A Si está a revelar-se uma caixinha de surpresas, não admira que tenha escolhido o símbolo que escolheu para o seu blog! Que história maravilhosa, com tantos gémeos, coisa de que eu não gosto nada :), todos diferentes, pois claro.
Sabe que a sua auto-descrição sagitariana me deu imensa vontade de rir, porque vivi com um marido sagitário, de quem continuo imensamente amiga, que era exactamente assim.

Si disse...

Fada,
É bom saber que há quem goste de ler o que nos sai pela cabeça fora. E acredite ou não, fartei-me de me lembrar de si, enquanto escrevia este texto, e das minhas próprias irmãs (que não são mázinhas, longe disso!!), mas também são gémeas e das verdadeiras!
Quanto aos sagitários..., bem...., não há mesmo nada a fazer!!! (rsrsrs)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Foi um "lapsus graffiti" (( não sei como se diz em relaçaõ ao computador, vai mesmo assim!)
Chamar-me garanhão até é um elogio, afilhada, o problema é que eu não costumo "seguir" senhoras casadas...
Bem, mas para verem qua as coincidências não se quedaram por aqui, ontem também me ofereceram uma caixa de bombons de ginja da Hussel! Pena só ter 8, senão distribuía pela vizinhança...

Si disse...

Ó Carlos!!
Eu vou já redimir-me desta minha embaraçosa brincadeira!
Esta minha escrita reactiva põe-me a imaginação a ferver e às vezes transborda e tudo!
E ficou tão zangado comigo, que nem comenta o post de hoje nem nada!
Vá lá, padrinho, perdoe as maluquices desta afilhada e leve esta flor consigo, para pôr na lapela, como um verdadeiro cavalheiro que é!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Afilhada:
Já respondi ao seu último comentário. Limpe-se a este guardanapo! depois e comer uma ginginha da Hussel, claro!
Beijinho

Ka disse...

Querida si,

Vou tentar descrever o estado de espírito ao entrar aqui: a música entrou corpo adentro levando logo nos primeiros acordes uma paz de espírito e um bem estar maravilhosos.

O conto é por demias delicioso e curiosamente ainda não tinha lido as letras pequenas e já tinha pensado que poderia ter alguma associação com o post da nossa presidenta :)

Belíssimo momento este aqui passado, obrigada!

Beijinho

Si disse...

Carlos,
Agora quem se riu fui eu, mas continua sem comentar o meu post de hoje, nem tão pouco sequer levou a flor pata colocar na lapela. Ohhhh :( :( ;)....

Mas já que oferece bombons, pronto, tá o caso arrumado!!

Si disse...

Ka,
Também adorei a música, porque adoro também conjugar o tema do post com o tema ou pelo menos o nome da música. Infelizmente, nas bases de dados, poucas seriam as buscas em que teria sucesso, se as escolhesse em português.
Mas contra mim falo: é que, por razões óbvias, de respeito pelos locais onde me encontro diariamente, raras são as ocasiões em que o posso fazer, com som....
Beijinhos!

Victor Cardoso disse...

Gostei muito deste post.
Aprecio muito a natureza que pare estes sinais que nos fazem reflectir, e que fertilizam as ideias com resultados assim...