quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

encontros


Apertou o espartilho ao máximo, agarrada à coluna do dossel, esvaziando os pulmões para dar o jeito final às fitas de nastro corridas pelos ilhós e abandonando-se à força com que a criada de dentro as puxava. Subiu as perneiras das coulottes, para desenrolar as meias de vidro, que prendeu com a liga e enfiou os pés delicados nos sapatinhos de biqueira redonda. Compôs as mangas de balão da camisinha interior, ajeitou os saiotes engomados e enfiou-se no vestido de tecido adamascado azul petróleo que lhe vincava a cintura e redesenhava o colo do seio branco. Sentada na banqueta da cómoda espelhada, Luísa admirou o seu reflexo, retocou a face com o fino pó de arroz e no final perfumou-se, espalhando nos pulsos e atrás das orelhas a essência de rosas.
Escolheu com cuidado o alfinete com que ia pregar o chapéu, pegando nuns e noutros antes de se decidir. Uma pedra turquesa, com umas leves penas de pavão seriam o remate perfeito para a toilette dessa tarde.
Antes de descer, releu uma vez mais o bilhete, mandou chamar a charrette e, ainda no quarto, encaixou no penteado a capeline, dando uma última vista de olhos no espelho, satisfeita com o resultado.
Chegou ao local, com 10 minutos de atraso, onde ele a esperava, já impaciente, andando de um lado para o outro com o relógio de bolso na mão. Cumprimentou-a com um leve acenar de cabeça e a intenção de levantar, com uma das mãos, o panamá que lhe cobria o cabelo perfeitamente domado a brilhantina, enquanto que a outra pegava na dela, levando-a até aos lábios sem tocar.
Sentaram-se na manta estendida pelo cocheiro, em cima das ervas rasas que ladeavam o rio e ali ficaram, até ao anoitecer, numa conversa amena, numa troca de olhares púdicos, com laivos de insinuações carnais que ele via em cada mordisco que ela dava nas queijadas do farnel.
Já em casa, Luísa tomou um duche rápido, passando a água na cara por mais do que uma vez. Enrolou-se numa toalha seca e enxaguou o cabelo com massagens enérgicas, atirando-o para trás num movimento solto e examinou a pele clara, acabada de esfoliar. Pegou no creme hidratante, espalhou-o uniformemente e, pelo caminho até ao quarto, deixou cair a toalha ao chão. O espelho alto devolvia-lhe a imagem de uma mulher elegante, de carnes firmes, seios rosados e cintura estreita, perfeitamente definida dentro das camisolas de lycra colorida, jeans justos e elásticos, enfiados por dentro de botas de cano alto e biqueira redonda.
Espalhou um pouco de fond-de-teint naturel, sublinhou a pálpebra de cima com um eye liner fino, esticou e avolumou as pestanas com rimmel, passou um pouco de gloss nos lábios carnudos e por fim borrifou generosamente a roupa com o último perfume da Dior. Sacudiu uma vez mais os cabelos que deixara secar ao ar, depois de uma boa dose de mousse para caracóis, e confirmou as horas no telemóvel. Saiu apressadamente, descendo as escadas três a três, voando para dentro do Clio de dois lugares e iniciando a marcha com um chiar de pneus. No semáforo vermelho, aproveitou para acender um cigarro e pensar no encontro marcado. 'Que cena marada em que se metera', disparou, sorrindo para o retrovisor.

Onde é que já se viu ir ao encontro de alguém desconhecido, só porque recebera um enorme bouquet de rosas vermelhas passion, com um bilhete manuscrito em letras inclinadas, dizendo: 'Adoro-a desde o primeiro momento em que a vi. Espero por si, hoje, às 17.00h, na curva larga do Rio Prateado'


Republicação, para desafio de Julho da Fábrica de Letras

26 comentários:

Vekiki disse...

Hum...maravilhoso. Queria ser essa Luísa, receber essas rosas, apertar esse espartilho...queria ser essa Luísa de jeans elásticos e cabelos encaracolados...e ir...
Adorei este ContoHistória:)

Gi disse...

Esperemos que estes encontros não terminem em nós cegos a juntar ao espartilho da alma.

Fenix disse...

Empolgante!
Gostei.
Abraço

pedro oliveira disse...

Já tinha saudades dos teus textos.
bjs

Patti disse...

Que bonito encontro marcado no passado.

Antonio saramago disse...

Antigamente os encontros românticos tinham tanta beleza!!!!
Só o facto de muitos terem de ser ás econdidas lhes dava maior encanto.

BlueVelvet disse...

Uma descrição perfeita de um encontro ao qual eu nunca iria:odeio rosas vermelhas. Aliás, não gosto de flores vermelhas, excepto as papoilas.
Beijinhos de mim para Si

Pitanga Doce disse...

Ó Bluevelvet tu não ias? Pois eu ia, com asa quebrada e vestida de múmia azul e a mancar se fosse preciso!

O primeiro lembra o filme "Em Algum Lugar do Passado".

O segundo lembra uma "Belle de Jour" moderna.

Quanto as rosas, das quais também não gosto, dava-as para a mulher do cocheiro.

Desculpe Si, mas o post é teu, pois não? É que esta mulher Aveludada, atem-se a pequenos detalhes que...francamente. hehehehe


beijos meninas

Pitanga Doce disse...

E ainda pra mais a mulher tem um Clio!!! Será Cerejinha também???

Devaneante disse...

Um conto (ou serão dois?) escrito de forma absolutamente exemplar. Gostei particularmente da primeira parte. Não que a segunda parte esteja menos boa que a primeira, mas achei fenomenal a exactidão e o pormenor na referência a todos aqueles adereços que já não se usam nos nossos dias.

Patti disse...

Pronto e agora que aquelas duas (a brasileira e a novaiorquina) já disseram as tonterias todas, venho eu de novo com calma.

Olhe, eu adorei a referência à cama de dossel, são lindas essas camas e sempre actuais, mesmo com os tecidos de agora.

Está excelente a descrição e a atenção que dedicou a cada pormenor, ao ritual do vestir dessa época. Fez-me lembrar as damas dos livros da Juliette Benzoni.

A outra, que somos todas nós, preocupa-se tanto com a aparência como a sua antepassada, mas de uma forma muito mais livre.
Liberdade essa que conquistamos e nos permite ir a encontros às cegas, se assim o decidirmos.

Muitos parabéns pelas metáforas em forma de conto.

Si disse...

Pitanga e Velvet,
Pois fiquem sabendo que rosas vermelhas passion são as minhas preferidas. Não são as normalíssimas da silva, não senhor, são as 'passion', que parecem feitas de VELUDO, pelo que muito me espanta que a Sedona Velvet delas não goste! Só por serem vermelhinhas e não azuis??
Eu sei que gostos não se discutem, mas receber um ramo de papoilas a marcar encontros, também não me parece muito atractivo....
Detalhes, realmente!! rsrsrs

P.S. Ai que agora é que eu fiquei atrapalhada, que não conheço nem um filme nem outro.....

Miepeee disse...

Eu ia, nunca se sabe se nao estaria ali o homem que me ia fazer feliz e vice-versa :)
Beijinho.

BlueVelvet disse...

Ah, querem guerra:)
Eu estava muito sossegadinha no meu canto mas a Pitanga foi-me lá provocar.
Então é assim ( já sabem que quando digo, então é assim, a coisa tá brava...).
Então é assim:
O texto, está magnífico. Os pormenores uma delícia. Mas a isso, a afilhada já nos habituou.
Mas as rosas encarnadas, sejam elas Passion ou não, no me gustan.
São um déjá vu muito pouco original.
Já o disse aqui e repito: o caminho para o meu coração faz-se atapetado de rosas brancas Akito, ou rosa chá.
Quanto a um ramo de papoilas confesso que nunca me mandaram um a marcar encontros, mas se mandassem ia a correr pela originalidade que me faria querer conhecer quem as mandasse.
E depois, menina Patti, nos pormenores é que reside a diferença.
E a Si,essa de não conhecer a Belle de Jour, nem parece seu. Aquele filme com a Catherine Deneuve, uma dona de casa casada e frígida com o marido, que realiza durante a tarde as fantasias que não tem com o marido.
Pitanguinha, já vi que mesmo desasada continuas uma peste...
E siga a rusga, mesmo de Clio

Patti disse...

Sôdona Velvet, sôdona Velvet!
Vamos lá a ver se aqui a PresidentA lhe manda confiscar a bagagem, cada vez que a madame vem lá de China Town cheiiiinha de marcas até ao tejadilho, a dizer ao pessoal aqui do burgo, que comprou na Saks!

E a propósito, onde param aqueles sacos de gelo topo de gama, para trambolhões fora da idade?
Não me diga que enviou via Miami, para a outra pitangueira?

E a minha comissão?
Mau Maria, mau Maria!

Si disse...

Velvet,
Confesso a minha ignorância...esse passou-me completamente ao lado ou então, se o vi, não me lembro mesmo!
Agora dejá vu, dejá vu, não direi, mas se calhar é a tradição que ainda é o que era.....
E as verdadeiras 'passion' são raríssimas, pelo que sei, só importadas de um determinado canto da América do Sul, talvez criadas ao som daquelas notas quentes que o tango e as rumbas sabem tocar....
Não podemos ser todos iguais, não é??

BlueVelvet disse...

Si,
confesso que não conheço essas argentinas.
Que acha de pedirmos ao Carlos que da próxima vez que lá vá traga um ramo para cada uma de nós?
E se me permite só aqui uma respostazinha à nossa PresidentA:
Patti
desafio-te a provar que as minhas malinhas coisinhas assim são compradas em ChinaTown e não nas lojas da própria marca.
E se não provares, já sabes: processo de difamação.
Aliás, estou tão incomodada com as tuas insinuações que vou já ligar para a Felícia Cabrita, senhora que muito admiro pelos valores morais que defende, iac, iac, iac, e pedir-lhe que comece a investigar o caso:)

Patti disse...

Sim, sim filha!
E depois lá na alfândega dizes como a outra: "São rosas senhor, são rosas! Akito, mas rosas!".

Si disse...

Pronto!
'Tá discussão instalada!
A Velvet já sabe que não pode espicaçar os predicados que a PresidentA tem naquele saco azul, a PresidentA também sabe que não se pode meter com uma advogada, senão quem depois anda aos papeis sou eu, para apaziguar estas almas inquietas!
Acho mesmo que vou ter que chamar o CBO para acalmar esta fome de impropérios (ham)burgueses!!!!

Rafeiro Perfumado disse...

Se na tal curva ela visse uns baldes de gelo, uma marquesa e um bisturi, queria ver como era...

Si disse...

Rafeiro,
Tinha bom remédio. Fazia inversão de marcha no Clio e voltava a chiar os pneus para sair de lá a toda a velocidade, sem dar tempo a que nenum rafeiro introduzisse o código para ir ao WC na jante....rsrsrsr

Filoxera disse...

Ui!!!
Isso é Impulse, não??
Beijinhos.

paulofski disse...

Moral da história, o moço acaba sempre por apanhan uma granda seca!

Chica disse...

Linda e empolgante história.Ótima participação!beijos,chica

Vera, a Loira disse...

Adorei a tua participação. Escrita fantástica.

Tulipa Negra disse...

Gostei muito do paralelismo entre a primeira Luisa e a segunda, mais actual, mas afinal tão semelhante à antiga. Parece que os rituais não mudaram assim tanto...
Beijinhos