sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

amores de perdição


Dá-me um whisky.
Mau...
Anda, deixa-te lá de conversas e serve-me que é para isso que aqui estás!
Serviu-a.
Bebeu, de um trago.
Pousou o copo e atirou as moedas para cima do balcão. Virou as costas e equilibrou-se de novo nos saltos que lhe torturavam os pés, lembrando-lhe a vida passada a percorrer as esquinas, a responder a uns e a outros quanto é que valia a sua vida.
Atendeu o telemóvel, para dar conta de que já estava ao serviço. Sempre à mesma hora; só lhe faltava picar o ponto e vestir uma bata de trabalho, que sempre daria jeito para tapar o corpo do gelo que fazia na rua, naquela noite de Fevereiro.
Uns metros mais à frente ficava a sua zona, conquistada com suor, esforço e algumas escaramuças e estalos bem dados à concorrência. Olhou em volta, acendeu um cigarro e esperou, numa pose a favorecer a mercadoria. A loja estava aberta, só faltavam os clientes.
Foi já depois das cinco e meia da manhã que se começou a preparar para sair; sair, para entrar, na pensão onde vivia com o 'Gêncio. No bolso, levava o pequeno rolo de notas, os proveitos da noite, que já tinha conferido e separado das gorjetas; poucas, porque os clientes já não se esticavam muito na generosidade, mas ainda assim, só dela, como dela era a boca que se deixava beijar, o corpo que se deixava tocar, imune às promessas que ouvia em momentos de delírio.
Subiu as escadas já sem sapatos, meteu a chave na porta, estendeu-se na cama do quarto alugado e sentiu outro corpo que se aproximou do seu, a pedir mais um tempo de aluguer.
Nem sabe se o concedeu ou não.
Nem lhe importa.
Era apenas mais um dos amores da sua perdição.

13 comentários:

Pitanga Doce disse...

Amor de perdição, amor bandido. Tenha o nome que tiver, difícil vida fácil!

boa noite Si

Gi disse...

Amores de ganha-pão.

Devaneante disse...

Triste... muito bem escrito, como de costume, mas triste... mas mais triste ainda é saber que a realidade é, em muitos casos, ainda mais triste do que esta tristeza que aqui nos deixas.

Fenix disse...

Já vim aqui várias vezes, depois da primeira leitura, na tentativa de deixar um comentário.
Volto a reler..., à procura das palavras certas para escrever..., mas só me fica um nó na garganta e as lágrimas nos olhos...
Não sei que mais dizer...

de dentro pra fora.... disse...

São mesmo de perdição esses amores,...sem magia, mas de se perder no tempo talvez para esquecer os motivos porque se fizeram perder...

Antonio saramago disse...

Com muitas desculpas pela ausência do teu cantinho, mas o tempo foge-me.
BFDS. E gosa o dia de amanhã

BlueVelvet disse...

De perdição, sem dúvida.
Há uns anos acabaria tísica.
Agora, apenas perdida, de sentimentos.
Beijinhos de mim para Si

paulofski disse...

Amor perdido,
amor desfeito
Amor próprio,
já não tem jeito.



Beijo e bom fim-de-semana.

1/4 de Fada disse...

A sua heroína fez-me lembrar duas outras: a Salomé de José Rodrigues Miguéis e a que subia eternamente cansada a Calçada do Carriche, de Gedeão, todas elas trágicas à sua maneira.

Teresa Queiroz disse...

Desamores...


Excelente!

Filoxera disse...

Histórias de arrepiar, como diz a canção...
Beijinhos.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

O meu comentário de sexta não entrou. Já não o consigo reconstituir, mas tinha a ver com o facto de, naquele dia, também ter falado de uma outra forma de dar o corpo. no Delito de Opinião.
A propósito da Carolina Salgado, mas não só...

Miepeee disse...

Apetecia-me dizer que o amor e f****o.
Peco desculpa pela falta de educacao, nao publique que ainda lhe censuram o blog:)
Beijinho.