segunda-feira, 25 de maio de 2009

uma questão de pele


Nunca ela se tinha sentido tão violentada na sua essência.
Estava habituada às agressões comuns, às que, implacavelmente, a deixavam marcada, um dia após o outro, erodindo o seu brilho natural, apagando-lhe a juventude, endurecendo-lhe a macieza, sulcando vincos imperceptívelmente mais fundos, arados na lâmina do tempo.
Mas hoje, tinha-se aberto em si uma excepção, recortada por um gesto fortuito, vingador de uma falta no instinto reflexivo, causando dor, libertando, em jorro temperado, uma inundação carmim.
E o alerta foi dado.
Sentiu-se pressionada, chovida de uma água bem oxigenada, apertada numa imaculada cama de lençóis de gaze, enquanto no seu seio, os soldados iniciavam a batalha, erguendo barragem ao ímpeto daquele transbordo, as defesas contra potenciais invasores, aproveitadores desta sua fragilidade.
E de repente, uma picada. E outra. E ainda outra, que a trespassava, deixando atrás de si, um rasto negro bordado, contrastante com a sua brancura natural .
Ganhou coragem e romanceou esta desdita.
E prometeu a si mesma, nunca mais dar demasiada confiança a gumes afiados de facas de cozinha.

17 comentários:

salvoconduto disse...

Pois eu estava a escrever aqui no meu pc e de repente dei conta que tinha um golpe num dedo, sem saber se foi faca se foi papel...sim que nesta coisa de escrita às vezes também há gumes afiados.

annie hall disse...

Venho deixar apenas um Bom dia e desejos de uma boa semana:)bjs

Justine disse...

Que interessante, o ponto de vista da pele! E a reacção por baixo dela, que é a mais importante!
Como a pele, também nós não deveríamos dar demasiada confiança a determinados gumes...:))

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tenho mais medo do gume afiado das palavras , do que dos gumes de uma faca. As marcas das palavras de gumes afiados podem ser mais indeléveis, mas as suas marcas perduram por mais tempo.

paulofski disse...

Ora o Carlos tirou-me as palavras, e sem me ameaçar com um gume afiado. As cicatrizes que uma língua afiada pode deixar são por vezes bem mais difíceis de sarar!

Pitanga Doce disse...

Huum , faquinhas de passar geléia, sem ponta. Essas são as melhores. hehe

beijinhos e bom dia (céu de chumbo?) Olha que esta???

Pepper disse...

Gostei mucho!

:D

Beijos

Miepeee disse...

Ha cortes pequenos que doem mais que grandes facadas. Ha palavras que dilaceram mais que muitas facas.
Beijinho.

Luísa disse...

Muito bem gizado, Si, este testemunho da que é, geralmente, a primeira vítima dos nossos pequenos descuidos ou inabilidades domésticas. :-)

Cadinho RoCo disse...

Existm cortes totalmente imprevisíveis.
Cadinho RoCo

de dentro pra fora.... disse...

Pois...nem sempre são as facas afiadas que marcam mais, as subtilezas com que nos ferem deixam marcas bem mais profundas...
será então uma questão de 'sentires'

Violeta disse...

tenho um corte feito pelo papel e outro arranhão da Zoe.
bjs

Ka disse...

Eu sou perita em cortes na pele...o mais radical foi com um cortador de batatas ás rodelas :S valeu-me ter o centro de saúde mesmo em frente :D

Aproveito e junto-me ao Carlos e ao Paulofski, há línguas afiadas qeuedeixam as suas marcas :|

Beijinho e uma excelente 4ª feira!

Mike disse...

Si, então e chego aqui e quase me corto? Gostei de ler este post afiado. :D

Si disse...

Pois saiba Mike, que esta é uma semana de experiências a nível de escrita, um corte e cose de 3 vertentes diferentes, já que agora optei por publicar apenas às 2ªs, 4ªs e 6ªs.
Espero que volte mais vezes, para afiar é a crítica, que eu não tenho medo de golpes de tesoura!!
:-D

Mike disse...

Tenho eu, safa! (risos)
Mas voltarei, nem que seja de escafandro e de mansinho, não vá levar alguma tesourada. ;D

Devaneante disse...

Coitada da faca que tem sempre de apanhar com as culpas alheias!...