quarta-feira, 13 de maio de 2009

intimidades # 3



A auto estrada devora-me quilómetros dos meus dias. Seja para norte, para sul, para este ou para oeste, desenrola-me aquela língua negra, na voracidade que engole rotações por minuto, com a mesma satisfação com que se apraz no consumo de combustíveis fósseis em extinção.

Sobre rodas, sob as rodas, e sob o céu azul, cinzento ou cor de chumbo, desfilam distâncias abreviadas pela velocidade, urgências apressadas de chegar ao destino, sem tempo para apreciar as paralelas que correm em sentido contrário.

É por isso que, quando imponho alguma calma nos dias de correria, gosto de passar o volante para o condutor mais sereno que conheço; puxo o banco todo para trás, encaixo a biqueira no calcanhar, atiro os sapatos para o chão, descalço as meias à toa e ponho os pés em cima do tablier, a tamborilar, ao som da música da RFM.

Livre de convenções, dou largueza às falanges espartilhadas pelo rigor do Inverno e cumprimento as unhas ainda descoradas que hão-de brilhar lá mais para o Verão, quando espreitarem da sandália de cunha, vaidosas da discreta, mas indispensável nail-art da Marlene. Elas sorriem de volta, agradecem e espreguiçam-se em direcção às nuvens para lá do pára-brisas, insinuando-se, nuas, numa relação platónica de fazer corar as peles mais sensíveis.

Pisco-lhes o olho, compreensiva desta ânsia, e peço-lhes contenção na luxúria que lhes urge, nas comichões que os raios de luz lhes provocam;

É que esta é uma liberdade perene, esfumada pelos dias seguintes, até ao próximo fim de semana prolongado.

18 comentários:

Gi disse...

Eu, como não conduzo (não porque não tenha carta de condução), mas porque gosto mesmo de ser conduzida, mal começa o calor também ponho os pés no tablier.
Mas os meus pés são tão feios, mas tão feios, que qualquer dia provocam acidente ; porque não há quem olhe.

Gi disse...

Perdão: Porque não há quem não olhe.

Patti disse...

Isso é que deve ser uma vista muito linda, para os condutores da outra faixa.
Pés calejados, sabe-se lá há quanto tempo sem apanhar ar, sufocados na claustrofobia da pele sintética, unhas assimétricas e com restos do último verniz

pedro oliveira disse...

Então bom fim de semana prolonogado,eheheh.

Pitanga Doce disse...

Pois eu adorava dirigir nas autoestradas! Indo para o Norte ou Centro, o vidro do carro aberto sem me incomodar com "o estrago" no cabelo e lá ia eu! A sensação de liberdade era algo indescritível. Música? Ó sim! Quantas vezes Elton John me acompanhou a Coimbra?

Sacrifiiiiice!

Oh oh Daniel my Brother!

Era bom, era!

bom dia Si

Rafeiro Perfumado disse...

Só não concordo com a escolha musical, a RFM anda com música tão retro que, adicionando aos vapores emanados dos pés, ainda adormeces o condutor! ;)

Beijoca!

de dentro pra fora.... disse...

Eu gosto muito de conduzir, então se for na auto-estrada sem ninguém pela frente,melhor ainda...

Antonio saramago disse...

Queres é liberdade!!!

BlueVelvet disse...

E não é que eu faço o mesmo, apesar dos protestos do meu filho que acha que devia ter juízo?
Enfim, intimidades:)
Beijinhos de mim para Si

paulofski disse...

Seguir sempre pela via verde, sem excessos de velocidade muito menos em passo de caracol, só pelo prazer de ir a qualquer lugar, em viajem e se fosse um descapotável, então!...

Pitanga Doce disse...

Concordo com o Rafeiro e a RFM não dá em todo o lado. Quando vou na A1 e entro para a A-25 o que escuto é ago%¨&$¨$&¨%$&¨ra vamos ouv*&¨&¨%&¨%&¨% e mais música que é &%&$*&$*$*¨%$. Entenderam??? Nem eu.

Ó Si hoje vou num jantar de aniversário adivinha aonde, mulher? Lá onde o Vasco deixou o barco. Deus me proteja!!!!!

Si disse...

Ai, credo, Pitanga!
Vá com muito cuidado, e olhe para todos os lados, não vá hoje ser vez do Fernão Magalhães circum-navegar!

Pitanga Doce disse...

NAVEGAR É PRECISO, SI! hehehe

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Que vontade de fazer cócegas!

Patti disse...

Cócegas?

Não sei se começo já com as coimas...

Pitanga Doce disse...

Si, acreditas que o dono da festa mandou vir dois artistas de Portugal? Mas fugiu a regra. Em vez de chamar fadistas trouxe dois desafiantes á desgarrada. Ela de Arouca e ele de Guimarães. Já viste no que deu? hehehehe

Ah, o barco não ancorou desta vez.

bom dia Si

Luísa disse...

Também já gostei mais de conduzir, Si. O estado é de tanta tensão, sobretudo na cidade, que prefiro ser conduzida. Mas nunca ponho os pés no tablier… Não sei, de resto, se ainda teria elasticidade para isso, que estes computadores têm vindo a emperrar-me, paulatinamente, os ossos todos.
Um dia, há muitos anos, regressava do Sul de Espanha com um grupo de amigas, com quarenta graus à sombra e pés ao léu pendurados das janelas, quando parámos para meter gasolina. O empregado da gasolineira meteu a cabeça no carro, para saber o que queríamos, retirou-se rapidamente e reapareceu segundos depois com um «spray» de cheiros, com que nos «flitou» energicamente os pés a todas. Penso que este episódio traumatizante também contribuiu para a minha presente atitude de recato. ;-D
(Nota explicativa: o problema não era falta de higiene, mas sim - apurámos na hora – a qualidade dos sapatos que na altura se usavam no Verão: uma espécie de sapatilhas com sola de corda, que retinham os cheiros e requeriam lavagens praticamente diárias, com as quais, aliás, desbotavam imediatamente. Vicissitudes de um par de pés há trinta anos.)

annie hall disse...

Bom fim de semana !Eu adoro conduzir um bom carro ...depressa :)