quinta-feira, 7 de maio de 2009

heranças perdidas


Irina, trabalha de sol a sol, na confeitaria snack-bar da esquina, vendendo o pão que o diabo do patrão, Arménio, amassou durante a madrugada. Entre meias de leite de cevada, tangos, francesinhas e pizzas à moda da casa, passa os dias, dentro de uma bata verde e laranja, amarrada pelo rabo de cavalo higiénico com que se penteia. Da terra natal, conserva apenas etéreas recordações, carregadas nos érres cantados, da herança da família o tom de pele leitoso, os olhos claros, a altura acima da média e a magreza que lhe alonga o pescoço até aos ombros, por onde nivela o cabelo cor de trigo maduro.
O sorriso, sempre automático quando enfrenta a clientela, dura apenas o tempo necessário para executar a tarefa, logo regressando à inexpressão que lhe é característica, ausente em qualquer parte incerta, naquele azul-céu igual ao dos seus olhos; os gestos, suaves e precisos, revelam um porte incomum e até já há quem afirme entredentes tê-la visto flutuar pelo chão fora, a transportar, por entre as mesas, a bandeja cheia de chávenas e pratos a fumegar, sem que nenhum dos conteúdos, alguma vez, sequer, estremecesse.
Nunca a ouvi falar sobre a sua vida anterior, parcas que são as suas palavras num português prosaico, mas já a surpreendi a cantarolar, vezes sem conta, sempre a mesma música, cheia de 'iéves', 'ióves', 'nhiéques' e 'tovaritches' no ritmo nostálgico com que vai lavando a louça suja do balcão.
No meu moleskine, fui retirando os sons, a estranha fonética, só possível nos estranhos caracteres cirílicos, que me são totalmente estranhos, repetidos em caracteres só meus, e, pouco a pouco conseguindo uma sopa de letras, que logo meti na panela sempre ávida do 'Tio Gugas'; depois de bem fervidas, ressuscitaram em significadas palavras soltas, cuja tradução se tornou vaga e difícil por se tratarem, segundo as pesquisas, de velhos termos em desuso, naquilo que parecia ser uma canção de embalar.
Pois se o moderno não servia, o antigo seria a chave e num alfarrabista da Trindade, pertença de um velho professor de faculdade, encontrei um dicionário de russo, editado em 1916, um ano antes da Revolução de Outubro, que iria adensar, o mistério mais espantoso que eu poderia esperar.
Por entre palavras vulgares e infantis, dirigidas a crianças em torpor, a canção escondia um estranho código de comportamento, de regras rígidas de sobrevivência, destinadas a serem memorizadas e tornadas instintivas nos cérebros férteis de tenra idade. Enaltecia-se a ligação de sangue e o segredo de um nascimento era citado, para ser protegido a todo o custo.
E foi com estas revelações que confrontei Irina, num sábado de manhã pouco atarefado.
E foi com estas revelações que, entre dois copos cheios de detergente, lhe saltaram, do bolso direito da farda, para as mãos molhadas, duas imagens. Uma a cores, outra a preto e branco.
- Esta era minhia mai, esta era minhia bis-avó. Minha mai, Olga, na casa de Ekaterinburgo, onde Irina nasceu, minha bis-avó, Tatiana, que teve filhia, sem ninguém saber, poco antes de morrer assassinada pelos bolcheviques.
Sem fôlego que fiquei e ainda com a cabeça à roda, tentando ligar todos os pontos da estória da História, Irina fixou-me os seus olhos azul-céu e rematou, entendendo-me a mão aberta :
- Irina Nikolaevna Romanova, filhia da neta de Nickolae Segundo, último Imperador da Россиия (Rossíya)

E a semelhança entre esta avó e a neta, lá em cima, é mais eficaz que um teste de ADN, não acham??

16 comentários:

pedro oliveira disse...

Li há tempos um livro sobre os Romanov, penso que o titulo é o conzinheiro dos romanov, e adorei.

Patti disse...

Olhe que com um pouco de sorte, ainda aparece por aí a Anastasia! Experimente andar por lá numa hora inusitada, que ainda tem uma bela surpresa.

Parece mesmo as minhas Biografias; muito engraçado, Si.

Gi disse...

E ainda diz vocemecê que está baralhada com o que eu escrevo.
Está aqui um passarinho que voltou, Si!


Pois eu hoje acordei, assim, meio estranha, meio misteriosa, muito introspectiva, o que nada tem a ver comigo ... serão heranças perdidas que me assolam?

Como a Família Romanov, todos nós somos um grandioso mistério.

Si disse...

Patti,
Lembra-se de eu lhe ter dito, no comentário que fiz ao seu post 'Amor é', que havia uma personagem, que andava a rondar lá por casa, com um nome cuja sonoridade era muito parecida com a do professor sueco??
Era esta!!!

paulofski disse...

O destino dos Romanov sempre despertou a imaginação e o interesse das pessoas. E a História, que tantos mistérios encarcera, se perpétua de mãos dadas com o destino.

1/4 de Fada disse...

Tem toda a razão, Si. Haveria muito mais hipóteses de uma descendente dos Romanov neste momen trabalhar em Portugal do que nos EUA ou em França. Calculo que também deve ter lido "John o chauffer russo" quando era adolescente...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Há coisas fantásticas, não há? Creio ter frequentado o alfarrabista a que se refere na Rua da Trindade

Si disse...

Carlos,
Era a 'Atena', se a memória não me falha, e o professor em causa, esse bem vivo na minha mente, ainda vai ser motivo de post!!!

Luísa disse...

Si, uma das biografias mais impressionantes (e bem escritas) que já li foi sobre os Romanov, feita por um americano que tinha um filho também hemofílico e que, por isso, interpretava de uma forma muito interessante e compreensiva o comportamento psicossomático da imperatriz Alexandra e o seu relacionamento com o sinistro Rasputin. Creio que está provado – com a descoberta do local de enterramento - que a família morreu toda e que não deixou descendência directa. Mas História é História e lenda é lenda. :-)

Si disse...

Luísa, eu sei.
Foi precisamente por saber que em 2008 foram encontrados os locais de enterramento e realizados testes de ADN, que comprovaram a morte de todos os descendentes de Nicolau II, que inventei um nascimento secreto, revelado apenas nos versos de uma canção de embalar.
Como de costume, a ideia surgiu através da foto em cima, que, curiosamente, apresenta semelhanças físicas com a fotografia verdadeira de Tatiana Romanov.
Pode não ser descendente, mas que Irina existe, isso é verdade... ; )

Justine disse...

Ora aqui está um saboroso "cocktail" de dados históricos, estórias de encantar, factos reais e escrita bem-escrita! Encantada:))
(e obrigada pelo apoio lá no 4eto durante a minha ausência)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pois, o professor era o Arlindo Magalhães, não era?

Si disse...

Carlos,
Exactamente!!
Como o mundo é pequeno!!!!
E diga lá se é ou não personagem digna de post??

Mike disse...

Gosta de escrever (ponto)
E escreve muito bem (ponto)

Si disse...

Mike,
Obrigado.
Pela visita e pelo elogio.
Volte quando quiser.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Si:Não tenho dúvidas. Assim que puder vou alinhavar um sobre os fins de tarde num sótão da Rua da Picaria, onde a História se desenrolava à nossa frente como um filme a que nunca quríamos ver o fim. Que tempos fabulosos!
Não me diga que também por lá andou...