segunda-feira, 10 de agosto de 2009

message in a bottle



Dei-lhe um pontapé e quase disse um palavrão, daqueles vernáculos incompreensivelmente libertadores. Estava escondida debaixo de uma duna minúscula que os caprichos das ondas construíram à sua volta, mesmo no limite da maré. A consciência cívica impunha uma acção de cariz ambiental, enquanto os impropérios mentais se dirigiam para um alvo fictício, de um jovem adepto da bebedeira sacramental ou de um espaçoso pai de família que aliviou a carga da mala térmica do peso da mine superbóquica.
Com o polegar e o indicador, peguei-lhe, enojada, e qual não foi o meu espanto, quando o manto de areia escorreu, deixando revelar a elegância de um vidro fino e transparente, rolhado a cortiça, que encerrava nas entranhas um rolo de papel amarelado.
Logo a imaginação cavalgou desenfreada, e na sua garupa, veio ao de cima a emoção da descoberta do mapa de um tesouro de valor incalculável, imagens de uma personagem em desespero solitário que, por este último recurso, comunicava ao mundo a sua sobrevivência, uma outra, frágil e fatal, a confessar o seu amor proibido e incestuoso, ou outra ainda, que, por mares nunca dantes navegados, quisesse salvar uma obra épica de perigos e guerras esforçados...
Foi com as mãos a tremer de expectativa, pois, que removi a rolha do gargalo e redobrei os cuidados ao recolher o papel, não fosse ele um pergaminho, um papiro até, de antiguidade a confirmar pelos testes de carbono 14, em perigo de se desfazer em mil partículas de pó.
Lentamente desenrolado, e colocado à luz dos últimos raios de sol, exibiu os seus segredos, arrebatando todo e qualquer exercício de imaginação.
Era uma frase simples, seguida de uma lista de nomes, perfeitamente caligrafados.
O último, era o meu.
Mistério insondável??
Não.
Apenas e só o corolar de uma evidência: 'Se nunca te saiu o Euromilhões, o que esperavas que te saísse numa garrafa vazia de Eristoff?'

19 comentários:

Miepeee disse...

Podia ser uma lotaria premiada ;)

Sunshine disse...

Quão enganadora pode ser uma garrafa na areia!
Deliciei-me a seguir este texto.
beijinhos com raios de sol

Violeta disse...

e com esta arruinaste os meus sonhos...
Um bj e boa semana

de dentro pra fora.... disse...

Eh eh! mas isso foi um sonho?
Aposto que acordaste a rir, não!?

Antonio saramago disse...

Sra. D. SI;CUIDADO COM OS PALAVRÕES, AFINAL, NINGUÉM TE CULPA DE ANDARES A SONHAR ALTO!!!

Justine disse...

Para além de muito bem escrito, o teu texto é delicioso de ironia! Gostei muito:))

Dulce Braga disse...

Acrescentou alguma escrita no papel amarelado e devolveu-a ao mar?

Si disse...

Dulce,
Sim, acrescentei.
O nome do próximo amigo a quem pregar a partida... ;);)
Beijinhos!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Minha cara amiga, apanhei-a com a boca na botija. Em primeiro lugar, porque disse um palvrão e, em segundo, porque deu seguimento à brincadeira, em vez agir dee modo ecologicamente correcto. seriam razões suficientes para propôr à PresidentA a aplicaçaõ de uma coima, por dupla violação dos Estatutos do BB.
de qualquer modo, como estamos em Agosto e o seu texto em arrancou um rasgado sorriso, relevo a falta. A Bem do BB.

Si disse...

Meu caro amigo Carlos Barbosa de Oliveira, lamento informá-lo que a sua urgência em me apanhar em qualquer falta não resultou, pois, mais uma vez, lê os meus posts na diagonal - conforme poderá ver na 1ª linha do texto, eu afirmo que 'quase' disse um palavrão, o que quer dizer que não cheguei a fazê-lo.
Quanto ao seguimento da brincadeira, também lamento, pois, além de esta situação ser completamente imaginária, o cariz ambiental nunca ficou ameaçado, dado que o propósito não seria o de esconder ou abandonar - em local impróprio, diga-se - mas sim, e pelo contrário, o de ser encontrado...
Ora então, pimbas, tome e embrulhe e não me provoque que ainda lhe rasgo o louvor!! ;)

paulofski disse...

Não disse mas pensou-o, e até ver pelos critérios de análise que são tidos em conta para a excução de penas do direito blogobirrista bastava "pensar" num palavrão, ainda por cima daqueles vernáculos, para que ficasse sujeita à aplicação de um artigo qualquer do regulamento que vocemecê segue à risca.

Se nunca saiu o Euromilhões também não iria libertar nenhum dos três desejos presos com o génio da garrafa, ou ia?

Si disse...

Pronto, se não viesse ali o senhor do Gabinete acudir ao outro comparsa do Rochedo, até lhe dava uma coisinha má!!!
Ó Senhor Paulofski, então quer ser mais papista que o Papa??
As únicas vezes que, no blogobairro, os pensamentos foram censurados, foi quando se tornaram explícitos em palavras ou imagens, sobretudo daquelas que incluem pindéricas sem roupa, como é vosso hábito, apelando à pouca vergonha e devassa, faltando ao respeito aos mais nobres princípios blogobairristas!!
Olha eu que tenho sido tão complacente, agora tenho de aturar estas acusações???
Mau, mau, Maria, que saco já do livro das contravenções e desato a escrever mais célere que um Polícia Municipal frente a um parcómetro!!

Pitanga Doce disse...

Aaaah! E eu aqui a imaginar um recado, um convite do tipo: encontra-me no próximo rochedo e seremos felizes para sempre. Ou, quem sabe, no próximo farol? Ah! Tinha que haver um encontro qualquer! Amoei!

cristina ribeiro disse...

...e foi num crescendo, de expectativa e curiosidade que segui todos os gestos da Si, até à resolução do mistério.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Minha cara afilhada. Creio que lhe ensinei mal o "catecismo". Pois não é que ele diz que se pode pecar por PENSAMENTOS, actos e omissões?
Nunca leio na diagonal... quando muito de cima para baixo como os chineses!

Si disse...

Carlos,
Remeto-o para a resposta que dei ao seu cúmplice de contravenções, o Sr. Paulofski...

P.S. E quanto a diagonais, bem, tenho a impressão que vi, algures, em parte incerta da blogosfera, uma certa prova documental do contrário, mas adiante....

Filoxera disse...

De valor incalculável é a sua imaginação.
Beijos.

pedro oliveira disse...

Confesso que já tinha saudades destes teus textos.
obrigado por estes momentos e pela visita no Vila Forte.
bjs

Kristal disse...

Texto cheio de suspense que li encantada pela forma e pelo conteúdo.Escrito com imensa graça,leveza e beleza.è preciso ter
gosto pela escrita,imaginação e bom humor para ter criado esta prosa.Parabéns