quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

parasimpattias # 2


Exercício: um objecto assiste, desde o início do casamento, à vida conjugal de um casal.
Esta, é a sua visão da história

- Ai não posso, não posso, não posso, cof, cof, cof, que irritação, credo!
Quando, às escondidas, ela demolha as madeixas no 65 doré profond a fim de encobrir as cãs, o Almerindo parece que adivinha; carrega tanto no restaurador, que até me intoxica com os vapores. Como se lhe valesse de alguma coisa, tingir de escuro aquela meia dúzia de folículos plantados no convexo polido da calva, para impressionar as amásias debochadas que lhe alimentam o ego de macho. Coitado! Dez reis de gente, o gordalhufo inflado de robustezas flácidas, presume-se homem fatal só porque assim que arrota umas notas de euro para cima da mesa, logo alguma as vem recolher, apressada pelo gesto do regueifado dedinho indicador.
Pobre de espírito, é o que ele é, sem tirar nem pôr. Digo eu, que já lhe amparei as ouras embriagadas do whisky marado, os alagamentos viscosos da pele sebosa, o ronco destemperado e aquele hálito a alho que me deixa hirta.
Que ele nunca me enganou, o pavão! Namorou-a sobre o veludo das músicas do Julio Iglesias e ela casou-se, iludida por uma vida de impolutos lençóis retesados de goma, a inocente. Mas os dois foram-se desconhecendo aos poucos e tudo se tornou engelhado, puído, esfiando-se a cada tentativa de ponteio.
A pena que eu tenho da Gertrudes, tão esmifrada e consumida ela está, Jesus! Ao fim de um quarto de século bem podia receber dele um mimo, um agrado, um sorriso que fosse, mas nada.
À noite, deita-se de maquilhagem a preceito, na esperança de lhe despertar o interesse, e levanta-se, ela e eu, de fronha encharcada e borratada de tanta lágrima vertida, olheiras amassadas, vincos enrugados na testa. São noites passadas em claro,
aflições, sufocos, palpitações desabridas e a súplica, murmurada ao meu ouvido, para que Deus não a leve. Não sem antes ter provado uma festa em vez de uma murraça.
E de manhã, lá vai, aos tropeções e a arrastar-se pelo quarto fora até à cozinha, onde despeja pela goela abaixo os mil e um comprimidos que nem o corpo lhe aliviam, quanto mais a alma.
E eu penso cá com os meus botões de madrepérola, que ela já devia ter posto um fim a isto. Logo da primeira vez, já lá vão dez anos, em que ele teve o desplante de fazer deitar, em cima dos meus folhos de renda, a descarada da vizinha da entrada ao lado. Preferiu calar, mesmo contra a minha vontade de o pôr com dono, só porque este estafermo do Almerindo foi o único homem da vida dela.
Dizem que a almofada é boa conselheira. Mas porque raio será que ninguém me ouve?

E será que quem andou a falar com a Patti tem melhor sorte? Vão, vão lá ver...

19 comentários:

salvoconduto disse...

Olha olha, se na casa da outra temos um "espreita" aqui temos uma almofada ressabiada a precisar que lhe sacudam o pó. Se falasses assim de mim já tinhas voado pela janela fora, vai lá vai, já nada se aproveita nos dias que correm. Ah se eu pudesse, bem que metia o meu jeco, o Pitosgas, aí em casa, que, por certo, se encarregaria de te deixar aí uma pinginha a marcar o terreno e a avisar-te de quem manda em casa. Já não há respeito

Pitanga Doce disse...

Ó minha querida almofada que até botões de madrepérola tem, sorte tua a Gertrudes usar o 65 Doré Profond, que se usasse um Vermelho Granada Intenso, nem um balde cheio de Neoblanc te lavava semelhante cor!

Olha, mandei que o cãozinho da vizinha viesse deitar a cabecinha nos teus folhos. Pode ser?

Dulce disse...

Ah, os segredos que as almofadas escondem... As lágrimas que sufocam, as dores que conhecem...
bjs

Gi disse...

Eu gosto tanto da minha almofada (gosto mais de lhe chamar de travesseiro, porque é lá que me atravesso, porque é áli que conto as minhas travessuras),que ela é tão viajada quanto eu e vive comigo desde criança.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Se eu fosse a Gertrudes trocava a almofada por um almofadão e acabavam-se as amarguras.
Essa almofada de botões de madrepérola deve estar recheada de penas e pouco habituada à vida. Grande alcoviteira, é o que ela é!Eu é que a punha com dono...

Rosa dos Ventos disse...

Sou muito prosaica!
Problemas de saúde levam-me a usar há muito tempo duas almofadas, qual será a que se queixa mais?
A de cima ou a de baixo? :-))
O dálmata da Patti está de rastos, está feito num caco, coitado!

Abraço

Luísa disse...

Querida Si, ainda bem que só esta sua almofada fala... (e ninguém se lembra de a abafar debaixo de outra almofada?) ;-D

pedro oliveira disse...

Eu durmo sem almofada...
bjs

Patti disse...

Ai que a música está o máximo! Julio, Julito, hijo de mi vida, adonde estas tu, chico de mi corazón?

Não resisti a esta música e até fiquei sem palavras... volto logo para dar algumas palavras de alento a esta sua almofada.

BlueVelvet disse...

Para começar quero saber quem me paga estas viagens de Lisboa/Porto/Lisboa a toda a hora. Sim, porque eu não tenho saco azul e ainda por cima estou com pena suspensa a cumprir serviço comunitário.
Depois gostava de saber onde compraram o dicionário de nomes pimba que tão bem usam.
Por fim, porquê que arrasam com o Amor? Com aquele que é para toda a vida e não obriga a enfiar comprimidos pela boca abaixo nem a encharcar almofadas de lágrimas?
Saio daqui acabrunhada com a realidade que tão bem descrevem da vida de certos casais, de certas camadas sociais...ou será que há almofadas destas nas casas onde moram os Martim, Bernardos, Salvadores com as suas Constanças, Margaridas e Catarinas?
Beijinhos de mim para Si

Si disse...

Velvet,
Gostei imenso do seu comentário.
Realmente, não são as camadas sociais que definem o que acontece na vida íntima de cada casal, pois tanto faz que sejam Constanças, como Gertrudes.
Mas não destroçámos o amor.
Ele anda por aí, nas casas pobres e nas casas ricas, mas é sempre das coisas negativas que se fazem as caricaturas, não é?
Não saia acabrunhada. Ninguém escreveu o final da história, por isso, tudo pode acontecer!

de dentro pra fora.... disse...

Pois é!! olha se elas falassem de verdade, imagina os segredos que vinham á baila, cá pra mim a Gertrudes prefere fazer "orelhas moucas"...será que esta pobre almofada não tem nenhumas memórias boas!? Coitada é só mágoa , chiça!

Mike disse...

Uma delícia, este texto. Ó Si, vai ter que falar com outra almofada... pode ser que a oiça. (risos)

Patti disse...

Ah o que as nossa almofadas podem contar de todos nós. Almofadas e não só.
Este exercício é excelente para nos colocarmos no ponto de vista de tudo aquilo que desejarmos e vermos as coisas doutra perspectiva.

Muito bom Si, os meus parabéns e adorei a foto. Almofadas querem-se altas e fofas!

Filoxera disse...

A noite é boa conselheira? Talvez, mas também "vai aonde te leva o coração"...
Beijos.

Justine disse...

Violente e cruel o teu retrato. Ao mesmo tempo, cheio de ironia e ternura. Pillow talk:))Que bom, este escrever à compita!!

Kristal disse...

Ó Si,coincidência os objectos viverem em "lares" tão destroçados.Eu que já vivi muito creio que,embora caricaturando,cada um deles viu mesmo o que nos conta.Ele há cada casal que teima em azucrinar-se em casa e é todo tremuras e ternuras em público!O vosso exercício é muito interessante e muito bem executado.Parabéns.

paulofski disse...

Coitadita da minha almofada, à conta dos murros que apanha por me enrrugar a fronha e não ficar na devida altura para me amparar os sonhos todas noites, até dá dó! Já me disseram que estaria mais que na altura de a trocar por outra, mais nova e mais fôfa, mas não a troco e pronto!

Lúcia disse...

Ai Si, e é quando as almofadas não são armas de arremesso. Mas aí são doces:))

SE as almofadas falassem, as lágrimas que teceriam. É que os sono perde-se mais vezes quando algo atormenta.

Mas constato que os vossos textos falam de objectos que assistem a uma degradação de algo bonito. Tenho pena em concordar que essa realidade está em todo o lado.
Mas vá - ainda há objectos felizes!:)