quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

viagens subcutâneas # 2

A minha barca flutua serena sobre um rio escarlate, borbulhante de vidas subaquáticas alvas e carmins, que deslizam, afoitas, ao sabor da corrente, por túneis ora escancarados na largueza, ora encolhidos na sua pequenez.
Viajo com um destino definido, nesta rede infiltrada de líquidos vitais, saboreando a adrenalina de remar por uma ravina acima ou deixar-me cair no pique de um precipício, extasiada pela bestialidade das forças da natureza, que me reduz e esmaga o tamanho, tornando-me ínfima, adequadamente mínima para a exploração a que me propus, na busca do mais secreto dos segredos humanos.
Vou atenta, portanto, ao troar ritmado e omnipresente que desejo cada vez mais perto; apuro os ouvidos para medir a distância, deixo que o vento no rosto me indique a direcção certa e aponto a barca para a enorme caverna mitral, sugada, enfim, para o coração das respostas que procuro.
Escondida pela parede ventricular, para não alterar com a minha presença a naturalidade das coisas, estremeço ao ritmo das palpitações, espio o aumento de volume do caudal em que navego, vejo as minhas velas enfunarem-se com o acelerar da respiração, espreito a vibrante sucessão de ondas de endorfinas dilatadoras, assisto, imóvel, ao fenecer dos sentidos, quando chegam, vindos directamente dos lábios, os salpicos mornos de lágrimas cloretadas de emoção.
Documentei-o, registei-o e analisei-o com rigor.
Concluí ser mais um impressionante fenómeno científico, de fortes consequências viscerais, mas cujas causas continuam tão desconcertadamente impenetráveis como antes.
Afinal, ainda não foi nesta expedição que consegui decifrar os intrincadamente codificados mistérios da paixão humana.

12 comentários:

Dragon Fly disse...

Muito intenso...

Luísa disse...

Si, estas viagens têm de ir muito mais longe, porque o coração é o fim do circuito. Talvez começando por pesquisar as terminações nervosas dos órgãos da visão e do olfacto, continuando pelas do tacto, tornando às «little grey cells», vasculhando nos armazéns da memória vestígios do velho instinto animal… :-)

Gi disse...

E isso de não conseguirmos decifrar os mistérios codificados da paixão humana é mesmo ... uma grande PRAGA!;)

Patti disse...

Pronto! Lá vem ela com as músicas!
Agora não consigo comentar!

Já volto!

Dulce disse...

Si
Já que o coração não lhe deu resposta, talvez consiga encontrá-la numa viagem feita através da alma...

annie hall disse...

Si a Paixão não se descodifica , aproveira-se toda :) depois logo se vê....

pedro oliveira disse...

Será que foi por isso que inventaram o GPS?
bjs

BlueVelvet disse...

Ai Si,
por mais espantoso que seja o seu texto, não se meta a tentar descodificar o que não é descodificável.
A Paixão? Xi....
Beijinhos de mim para Si

paulofski disse...

E quem consegue lá compreender esse danado indomado!?

Patti disse...

Muito bem 'apanhada' essa viagem, Si. Mas muito difícil de decifrar e é por isso que ela é tão intensa e excitante, porque continua a ser uma incógnita para o homem.

Rosa dos Ventos disse...

Quanto ao tal local longínquo onde também cai neve, só tenho a dizer-te que o Natal está quase a chegar e então também haverá uma viagem de retorno ao lar!

Abraço

josé luís disse...

adorei o seu texto!

porque navegar é preciso, bater o coração não é preciso.
por vezes sabemos que não há começo nem fim nas nossas emoções,
vogamos ao sabor de uma corrente que não consta de mapas,
porque neste rio que somos não há nascnte nem foz...