segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

dela o início, meu o final # 1

Era uma vez uma história, que começou aqui

Congelo sempre mirtilos no inverno. Só assim posso utilizá-los durante todo o ano em marmelada, sumos e bolos. Quando eu era criança, o meu avô contou-me numa das suas muito fantasiosas histórias, que existia um reino de princesas do gelo, exímias amazonas e caçadoras nocturnas, com uma visão apuradíssima, devido aos vinhos tingidos com mirtilo.
Caçavam pirilampos incandescentes, pó incendiado e desperdiçado nas caudas das estrelas cadentes e velas voadoras, para iluminarem o seu reino nos invernos sombrios das montanhas onde vivam.
Um dia, encontraram um mirtilo descolorado. Muito infeliz e sozinho, esmagado numa bola de neve. Olharam para ele com espanto e..

e continua assim:

....depois de muito o remirarem, decidiram unanimemente que ele não poderia fornecer aos seus néctares a cor funda, nem o intenso paladar delicodoce, indispensável à pujança dos sentidos. Deixaram-no, pois, ali, imóvel, conservado no gelo da bola e protegido apenas com um simples feitiço de intemporalidade.
Ora, muitos séculos mais tarde, este reino do gelo foi ameaçado de extinção, quando, por pura tolice dos homens, que nada percebem do subtil equilíbrio das coisas, os pirilampos começaram a rarear e o pó incendiado das estrelas cadentes perdeu o seu brilho.
Enfraquecidas e à beira de serem engolidas pela escuridão, as princesas guardavam com esmero os últimos cálices do vinho mágico, beberricando gotículas, suficientes, apenas, para lhes manter a consciência, já que nem forças tinham para colher novos mirtilos e ainda menos para os transformar.
Eis senão quando, no ponto mais alto da montanha que lhes dava abrigo, o tecto desabou, e de lá do cimo espreitou o olho enorme de um pequeno humano, curioso investigador de novas brincadeiras em tempo de férias de Natal.
Julgaram ser o fim. Seria certamente apenas uma questão de minutos até que tudo acabasse, dizimadas pela crueldade facínora de que todos os humanos padecem. Perdida, por perdida, a mais velha das princesas reuniu todo o seu fôlego para se aproximar da criatura, em defesa das restantes, mas logo se espantou com o sorriso manso e o olhar meigo e intrigado que ele lhe devolveu.
Sem saber porquê, impeliu-se a confiar. E deu por si, encavalitada na ponta do nariz dele, a sussurar-lhe a desdita a que todas as suas princesas estavam votadas, sem mirtilos nem luz que lhes dessem força e calor.
Do bolso das calças, o pequeno humano, retirou então uma baga minúscula, envolta num manto branco de gelo. Será que isto vos ajuda? – perguntou ele baixinho. Encontrei-o ali em baixo, esmagado numa bola de neve e achei que estava sozinho e triste, por isso trouxe-o comigo.
De imediato, a princesa reconheceu o mirtilo descolorado que, séculos antes, tinham enfeitiçado e que partilhava agora o seu corpo e o seu sumo com a água gelada. Sequiosa, pediu-lhe para chegar os lábios às pingas que escorriam e sentiu-se revigorar. Apressadamente, chamou por todas as outras para que as gotas lhes chegassem também, antes que derretesse completamente. Uma a uma, recuperaram de imediato, e alegres, dançaram e voaram em volta do riso infantil que o pequeno gigante soltava.
Nunca mais aquele reino foi o mesmo.
Agora, qualquer mirtilo é preservado cuidadosamente, tão mágicas são as sua propriedades, guardados por princesas que já não precisam de pirilampos nem de pó de estrelas. Para se aquecerem e iluminarem, nos invernos sombrios, basta-lhes pendurar, aqui e ali, brilhantes fios de calda doce de mirtilos descolorados, os mais preciosos deles todos.
E o menino?
Ah, o menino cresceu, teve filhos e netos e a todos, sentados no seu colo macio, contava uma história que parecia muito fantasiosa, sobre um reino de princesas do gelo, exímias amazonas e caçadoras nocturnas, com uma visão apuradíssima, devido aos vinhos tingidos com mirtilos.

Conto inscrito na Fábrica de Letras

17 comentários:

salvoconduto disse...

Tiro o chapéu.

Justine disse...

Fico sem dúvidas nenhumas, depois de ler o teu encantador e encantatório conto, que o futuro está nas mãos das crianças - e dos adultos que percebem de fadas e pirilampos e pó de estrelas como tu!
Parabéns:))

Eva Gonçalves disse...

Adoro histórias imaginativas! Fadas e mundo encantados... estou no meu elemento... que bom passar por aqui...

pedro oliveira disse...

Estou servido de chapéus(ontem o saviola marcou um golo à minha Briosa com um chapeú fantástico), mas este teu final de história é de se lhe tirar o dito.
Sou suspeito porque gosto de mirtilos, tão caros os "sacanaS", aqui fica um vídeo para quem não sabe o que são e o bem que fazem:

http://www.youtube.com/watch?v=3Tr3ySy_I6Y

GJ disse...

Bem a propósito e de propósito, Sí.

Luísa disse...

Gostei muito, Si. E o fechar de um círculo é sempre uma terminação surpreendente e feliz. :-)

Gi disse...

E assim se deu início a uma cadeia de congelação em série, para que em todas as estações do ano todos se possam deliciar com esta baga.

johnny disse...

Nem precisava de ter um texto muito bem escrito para comentar aqui. Primeiro, vi ali a minha canção preferida de Natal (a história de vida - e de morte, no caso de Kirsty MacColl - dos dois cantores é fantástica), depois, falou-se em Mirtilhos. Por nenhuma razão especial, pelo menos que mereça aqui ser mencionada, escolham sempre mirtilhos da Beirabaga. Claro que o texto bem escrito ajuda.

BlueVelvet disse...

Porque será que alinhámos rapidamente neste desafio, quando muitas vezes nos " esquecemos" de outros"?
Porque será que todas salvámos o pobre mirtilo e lhe démos poderes mágicos?
Acho que todas temos algo de mágico que acredita em fadas, escondido nos nossos corpos de adultas.
Adorei.
Beijinhos de mim para Si

Ps: Não esquecer que sou a Fada-madrinha:)

Gingerbread Girl disse...

Que texto tão delicado e mágico*
Muito bonito. ;)

*

Rosa dos Ventos disse...

Aqui está uma bela razão para nem sequer ter tentado!
Parabéns por esta encantadora continuação e final do desafio da Patti!

Abraço

Violeta disse...

Gosto de mirtilos.
lembra-me um filme que me lembra sonhos, que me lembra...
Bjs

Filoxera disse...

Lindo!
Foi por inspirações como esta que senti que não podia continuar o conto; não chegaria aos calcanhares deste...
:-)

Brown Eyes disse...

Um mundo de magia descrito subtilmente mas, até neste mundo, a diferença acabou por salva-lo da destruição.
Adorei. Quem não gostaria de viver mágicamente?

Patti disse...

E já dizia o Fernando, que o melhor do mundo eram as crianças.

Muito inspirador este final, como já lhe tive oportunidade de dizer.

Turmalina disse...

Si querida...andei congelada numa bola gelo que agora começou a derreter....estou precisando pensar...
Enquanto isso vou praticando meus dotes culinários.
Prô Natal devo fazer rabanadas :o)

Ana disse...

É tão bom ler histórias de fantaSIa, onde a magia nos deixa voar por mundos que se dizem de criança. Mas a verdade é que todos temos uma criança dentro de nós e não a devemos, nunca, deixar morrer. Porque precisamos desses mundos para fugir ao nosso, e porque são esses mundos que fazem de nós... "nós".
Excelente texto, excelente viagem ao mundo da fantaSIa onde há sempre lugar para um final feliz. Parabéns.