quinta-feira, 17 de setembro de 2009

o dedo na ferida



Quem me segue desde o início, mesmo antes de ter um blog meu, sabe que em finais de 2007, por questões profissionais, estive uma semana em Shenzhen, uma cidade do sudoeste da China, fronteiriça com Hong-Kong e povoada por 14 milhões de habitantes.
O que este vídeo revela, infelizmente, não é ficção. Assisti a cenas quase iguais, apenas com uma diferença: a idosa e a estudante que as protagonizaram não faziam qualquer tipo de triagem; sentadas sobre os calcanhares, no meio da passagem aérea em frente ao nosso Hotel, aproveitavam o crepúsculo para, com menos vergonha, inclinar o balde do lixo e de lá comer directamente.
Em ambas as situações, pedimos aos nossos anfitriões que esperassem um pouco para lhes podermos comprar comida. Recusaram educadamente, porque a polícia estaria demasiado perto. Coincidência ou não, nunca mais as vimos depois disso.
E, a este propósito, pergunto: que conclusões tirar sobre a comparação entre os hábitos dos povos chineses e portugueses, uns com uma tradição milenar de espírito de sacrifício colectivo e de trabalhadores altamente produtivos, outros com rendimentos mínimos, subsídios de desemprego e baixíssimos indíces de produtividade, perante a crise financeira que se abateu sobre o planeta?

Ah! E sugiro que, antes de responderem, se lembrem primeiro daquilo que ficou na travessa e no prato do vosso jantar de ontem...

17 comentários:

de dentro pra fora.... disse...

Pois...eu lembro muitas vezes, até chego a dizer que é um "crime" que cometemos.
Sempre me ensinaram que "há para comer e não para estragar" palavras da minha mãe, cá em casa tento não estragar, mas uma vez ou outra acontece...


O video é muito real, infelizmente

Rosa dos Ventos disse...

Chocante!
Sem palavras!

Abraço

Kristal disse...

1ªObservação:Não deixei nada no prato (sempre me obrigaram a comer tudo do que me servia) e o que ficou na travessa,guardei no frigo para hoje.
2ªObservação:Nosso povo com índices de "baixíssima"produção?Quem disse?Algum capataz,se calhar
3ªObservação:Não é o que fica nos nossos pratos que cria a fome no mundo,antes o que os Tubarões comem
e os Vampiros bebem.
4ªObservação:O vídeo foi feito,não sei se por humanidade,mas se fosse eu,teria cuidado em escolher uma família chinesa com menos filhos,talvez um.
4ªObservação:gostei do post que me provocou uma verborreia de se lhe tirar o chapéu!Abraço

Gi disse...

Nem vou ver o filme; vi tanta miséria em África e na Índia, vejo tanta miséria em Portugal (que muitas vezes pparece que estou na Índia) que, muito dificilmente, vai comida da minha casa para o cesto do lixo.

annie hall disse...

:(((( Tal como a Gi já vi imensa miséria e infelizmente não é preciso ir muito longe.Av.Almirante Reis ......

Patti disse...

Alguém morrer de fome, é qualquer coisa que me ultrapassa, revolta e me choca. No entanto não vou ser hipócrita e ainda há pouco deitei uma porção de salada russa pela pia abaixo, que ninguém ia comer.

A ironia de tudo isto, é que como o próprio filme mostra, fazemos todos parte de uma pirâmide e até esse pai de família contribuiu para a formação dessa mesma pirâmide, ao escolher os melhores restos para a sua família e a demais comida para as crianças e cães do bairro.

Mas o que me choca verdadeiramente, é o que a Si relata: não podia dar comida àquela avó e neta porque a polícia andava por ali: aonde o ser humano chegou!

Vou mostrar à Beatriz.

Luísa disse...

Si, nunca sei o que diga perante estas situações, num mundo revoltantemente desigual mas, do mesmo modo, revoltantemente desgovernado (e talvez ingovernável).

Violeta disse...

Querida Si
hoje estou demasiado fragilizada para ver o vídeo.
Venho cá amanhã
Enquanto raça deveríamos ser extintos.

paulofski disse...

Sempre dei muito valor ao que a minha mãe me conta como viveu quando era pequenina. Foram anos difíceis, de racionamento e necessidade por circuntâncias da guerra mundial. A refeição principal era uma sardinha no pão, a dividir por três. Eu raramente deixo alguma coisa no prato, procuro ser racional e não desperdiçar. Revolta-me assistir a episódios como estes em que se importam mais dar a aparência mentirosa que tudo está bem do que alimentar a realidade de quem precisa.

Filoxera disse...

Boa, esta atitude de pôr o dedo na ferida.
Cá em casa, há coisas em que não sou nada condescendente. Comida desperdiçada não.
Um beijo.

pedro oliveira disse...

O meu comentário vai no da linha da Patti, no caso da nossa comida que vai para o compustor e pelo facto de não se ajudar porque vem a policia.
O animal Homem é uma besta.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não é preciso ir tão longe, Si... eu vejo essa miséria em Lisboa, todas as semanas, pelo menos uma vez...

Justine disse...

Esta miséria, este mundo injusto e desigual - a quem interessa esta situação? pois se há alimento que chegue para todos, riqueza que poderia pôr toda a gente a viver dignamente...

continuando assim... disse...

nem sei que diga ...

e sim.... lembrei-me dos restos da travessa :(

bj
teresa

Dulce Braga disse...

Me incomoda mais, pensar no que eu deixo de fazer para mudar essa situação, do que conviver com as multiformas dela todos os dias:(

Ka disse...

Angustiante... :(
Eu dificilmente deito comida fora simplesmente porque me fez sempre confusão pensar que pode haver alguém a morrer de fome. Claro que por vezes lá vai mas por norma não o faço.

Beijinho

CPrice disse...

Si .. que mais acrescentar ao que tão bem foi dito? Que nos queixamos de barriga cheia? Sempre. Mas sempre, mesmo.

Obrigada por ter carregado nessa ferida .. * acho que andamos todos a precisar que alguém nos lembre o que realmente é importante. A vida, esse dom magnificio que alguns conseguem, é muito mais dificil do que pensamos.