quarta-feira, 2 de setembro de 2009

vacances

E eu lembro-me de o ver passar, a desconchavar-se todo, a traseira da direita, mais do que a da esquerda, vergado pelo peso da bagagem. Ao ritmo sacudido de uma suspensão que já conhecera melhores dias, fazia a estrada sobre o alcatrão remendado, e quase nunca renovado, catapum sobre um buraco, upa sobre uma lomba, vê lá, Maria do Sameiro, se não te oubliaste de rien, hãn, as braçadeiras que os putos usaram no tanque, o passe-vite dos pastéis de bacalhau, mais a cadeira da tua mãe, la méchante, também é de manias, mas vão bem uma com a outra, a poltrona com a pastelona, ehehehe, oh, lá, lá, percebeste, ó Maria do Sameiro, esta que eu disse, da poltrona com a pastelona, percebeste?? Ó Sertório Manuel, deixa lá a minha mãe em paz e olha-me mas é para a route, morcão, que estes buracos dão-me cabo das cruzes, e eu quero lá chegar ainda de dia, que levo aqui uma roupita para estender, 'tás a écoutar-me? Alors, se é para dizer des conneries, cala-te lá homem, o Ivandro Christophe já adormeceu, e tu, Sandrina Marise, deixa-te de bétises e de catar macacos do nariz, qu'inda levas uma lamparina é já a seguir, compriste??
Iam assim a viagem toda, trazidos pelo mês de Agosto e levados pelo espreitar do Setembro; trinta dias, para compensar trezentos e trinta e cinco mais, de saudades, passados no chantier das obras e nas casas das Madames, a lavar moquettes e a servir déjeuners, a juntar todos os tostões para construir em Portugal uma maison trés jolie, com janelas de cortinados floridos e telhados angulosos; trinta dias que terminavam sempre, para estes heróis de outra guerra, na péage de Vilar Formoso, com o olho gordo do Guarda-Fiscal, para os figos, os presuntos e os garrafões de azeite e de vinho, fotografias da família, transformadas em sabores da terra.


Republicação para Fábrica de Letras

23 comentários:

Pitanga Doce disse...

Querida Si, comecei a rir no "oubliaste de rien" e só parei na "maison trés jolie". Mas depois vieram as recordações de cunhados que viviam na Alemanha e cruzavam a fronteira de Vila Formoso. Na vinda traziam os famosos rebuçados de Espanha, aqueles que se agarravam aos dentes mas que eram bons porque em Portugal, naquela época, pouco havia disso. Nem bons nem maus. Tínhamos os chocolates Regina que ganhávamos a furar umas cartelas na Feira de São Mateus.

Na volta levavam os enchidos que a mãe fazia com a carne do porco que matara em casa, mesmo. Chouriça, murcelas e farinheiras. E o azeite e o tintol, é claro, que eram da melhor qualidade.


Ai, ó Si, desculpa lá que eu fiz um post em cima do post. Que raio de mulher esta Pitanga, que não se cala!


Ainda quero ver o que diz a Patti, destes "franceses". hehe

Dulce Braga disse...

Vou adormecer sorrindo!:))

pedro oliveira disse...

Mais um ano que passa e que as nossas aldeias ficam de novo sem ninguém, daui a 11 meses o ritual repete-se.Enquanto houver velhos nas aldeias.

Patti disse...

Ai que saudades já eu tinha de um grande post à boa maneira da Si.

Comme il faut!

Gi disse...

Este ano reparei que os portugueses que estão emigrados em França e mais a sua prole estão bem diferentes. A 1ª geração fala português (sem francesismos) com a 2ª geração ou, apenas, francês.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

E lá construíram a casa tipo maison com janelas tipo fenêtres. Revestiram a parede da entrada com azulejos da cerâmica de Valadares e num pedestal colocaram a imagem de Nossa senhora ao lado do símbolo do seu clube do coração.

Kristal disse...

Si,gostei da crónica que nos leva à "outra guerra",é ligeira,parecendo a princípio, até jocosa,o que não esperava de alguém como a Si,mas a Si tocou no ponto certo.Estes seriam os de 1ª geração,realmente, e que, após a construção da jolie maison se instalaram aqui,para criarem os netos,só que...quem parte agora(!!!)são os netos.

Pitanga Doce disse...

A definição do Carlos ainda está melhor que a minha. Só esqueceu de dizer que tinham a mania de fazerem a maison grande demais e várias escadarias por fora da casa.

Rosa dos Ventos disse...

Esta crónica ao som de " La valise en carton" está o máximo!
Como é que nos esquecemos que somos um povo de emigrantes e aparecem por aí vozes tão intolerantes em relação àqueles que nos procuram em busca de melhores dias?
Rimo-nos com este linguajar, mas compreendêmo-los muito bem.
São eles que dão colorido ao querido mês de Agosto que, tu sais, est fini! :-))

Bisous, ma chérie Si

Justine disse...

Um retrato muito "ternurento" de tempos e gentes que já são muito diferentes! Mas confesso que tenho saudades de os ver "inundar" a aldeia, que durante Agosto só falava francês- esse tempo acabou!

Luísa disse...

Imagino exactamente assim, Si. Grande gente, de que só tenho a lamentar as preferências arquitectónicas duvidosíssimas, a que deram expressão em vários cantos do país. Gostei muito de ler. :-)

Violeta disse...

E isto é que eram férias...
bjs
Ah! a música, a música...

greentea disse...

acabou este tempo???aonde?

é só passar na Guarda ou Vilar Formoso ou por aquelas aldeias todas para os ouvir as betises todas ora em meio frances ora num portugues que não é o nosso ....
adorei a crónica!

GJ disse...

Si, não lhe parece que os tugas estão cada mais emigras e os emigras cada vez mais portugueses?
E o Tugal só a encher chouriços está muito bidonville?

fugidia disse...

Ahhh, de vez em quando, raramente, ainda delicio a vista num ou outro.
Mas são sobretudos os marroquinos imigrantes em França, que descem de carro até Gibraltar, que mantém esta tradição pelas auto-estradas francesas e espanholas.
Gostei de ler :-)

Si disse...

Greentea,
Seja bem vinda a esta casa, já lá passei na sua e vi que conhece bem esta realidade.
Embora esta crónica pretenda referir-se aos emigrantes de 1ª geração, sei bem que haverá muitos que ainda se reflectem nela, todos com pouquíssimas bases de língua portuguesa, quanto mais de francês ou outra língua qualquer, mas que arriscaram, foram e venceram, contra barreiras que muitos ilustres letrados não teriam coragem de ultrapassar.
Volte sempre.

Si disse...

GJ,
Acertou em cheio.
Do alto desta pobreza franciscana em que Portugal navega, assente em castelos no ar, assistimos cá, àquilo que estes emigrantes de 1ª geração se submeteram lá.
Agora são trabalhadores dos países de leste que agarram com unhas e dentes os trabalhos que muitos 'tugas, sem formação nenhuma, mas de canudo em punho, se recusam a aceitar...

Sunshine disse...

Por aqui temos os "calafonas" ( emigrantes para a América do Norte), mas estes veem principalmente por altura da Festa do Senhor Santo Cristo, pagar promessas e matar saudades. Já deixaram de trazer "cocoa doce" ( geralmente Nesquick), porque há muito tempo já existe cá à venda. Com alguma tristeza vêem que os candilhes (candies) que trazem também já existem nas nossas estoas (stores)e que a sua terra está cada vez mais parecida com o país para onde emigraram: até já existem raioeis (highways) e tudo.
Duvido que exista açoreano que não tenha um "calafão" na sua família e que não saiba o quão difícil foi/é o seu percuso.
Gostei muito do modo como escreveste sobre "estes heróis de outra guerra".
beijinhos com raios de sol

cristina ribeiro disse...

São os sucessores dos " brasileiros " do início do Séc. XX, mas estes deixaram-nos casas belíssimas...

Poetic GIRL disse...

Fantástico! bjs

Tulipa Negra disse...

Eu já fiz esta viagem uma vez, embora sem os francesismos pelo meio (teria muitos outros a acrescentar!) porque teimo em falar português, e do bom. Hoje em dia, o avião já começa a substituir o carro, embora as estradas continuem cheias de personagens destas aqui retratadas.
Texto muito bom e divertido, sobretudo. Beijinhos

Eduardina disse...

Deu-me um prazer imenso ler a sua crónica!
Um beijinho

Catsone disse...

Si, olá, cheguei através da "fábrica".
Por aqui no burgo, Agosto é mês de matrículas estranhas e sotaques desviados. Como ex-emigrante de lugares mais quentes, revejo-me na saudade da terra-mãe.
E ainda consegui rir com algumas passagens ;)

Abraço