
A infantaria estava a postos, para entrar em acção logo a seguir aos archeiros, alinhados em quatro filas cerradas. Empunhavam setas de pontas afiadas e temperadas na forja do ferreiro do exército, capazes de perfurar facilmente o couro das túnicas de combate dos soldados apeados das forças inimigas, lançadas por arcos esticados com a perícia de longos anos de treino e dedicação.
Ao primeiro toque do tambor, o céu escureceu e o silêncio da manhã pouco desperta desfez-se num silvo de ares rasgados pelo voo de milhares de disparos simultâneos, seguidos por gritos e lamentações de feridos de morte, que logo se misturaram com exclamações de frémitos raivosos por actos heróicos e corridas desenfreadas em direcção à luta corpo a corpo.
Espadas, lanças, maças e tonfas, arremessavam-se à esquerda e à direita, penetrando em corpos protegidos por indefensáveis armaduras e elmos, espirrando o rubro de vidas ceifadas, espalhando-o e misturando-se com a lama calcada. O tropel dos cavalos dos carros de combate juntou-se ao magma de sons e à fúria da batalha, empurrando as fileiras de escudos e obrigando-os a recuar, esmagados pelo ímpeto da segunda vaga de guerreiros. No meio deles, numa montada vigorosa, uma voz de comando bradava ordens, impelia coragem aos seus subordinados, refazia estratégias e o corpo avançava de sabre em punho, escorraçando o inimigo. Do outro lado do campo, o repicar frenético do sino, anunciava a debandada, a retirada dos derrotados, a fuga sem glória e sem honra, a vitória, enfim, do exército de Ming Yungyen Li.
No final, contavam-se os mortos, transportavam-se os feridos até às tendas dos médicos, que se apressavam em ferver águas, ebulir folhas, juntar-lhe raízes, seguindo escrupulosamente os ensinamentos do Canôn Secreto, o pai de todos os livros da medicina chinesa, e por último, enviavam-se os batedores para reclamar os despojos de guerra, que iriam aumentar a fortuna do reino de Tsin.
De regresso à tenda, Yungyen Li desapertou e deixou cair no chão a armadura de tom castanho, presa por tiras vermelhas, a túnica e as perneiras cor de púrpura, pousou o chapéu castanho, amarrado com um laço vermelho e sentou-se a meditar, oferecendo incenso para agradecer aos Deuses a sua vida poupada e a vitória conseguida. Depois, lavou as mãos na água da bacia de madeira, deixando-a tingida de escarlate, refrescou o rosto suado e, finalmente, deixou afundar todo o corpo na tina de metal, onde já repousavam pedaços de cinabre e âmbar para relaxar os músculos.
Não era a primeira vez que Yungyen Li, filha primeira do General Ming Wang Chi, escapava à morte por um triz. Logo que nascera, a sentença de ser rapariga, que devia ter nascido filho varão, empurrou-a para um quase sacrifício nas mãos do próprio pai. Valeu-lhe a intervenção do seu grito poderoso, o mesmo que se ouvia hoje sobre todos os ruídos das ferozes batalhas, de quem se recusa a morrer, apenas por ser mulher.