quinta-feira, 1 de julho de 2010

dela o início, meu o final # 3


Era uma vez um conto que começava aqui, 


e continua assim:

Até à passada 4ª feira.
Aconchegada pela manta de crochet, há já um par de dias que Maria preferia o outro canto do jardim. Ali, o sol espraia-se até mais tarde e a nortada desvia-se no limoeiro.
Não desistira de indagar sobre o pianista, nem ele de tocar pela noite dentro, apenas se forçara a pensar que os mistérios e as fantasias lúgubres pertencem ao mundo dos livros, às páginas inteiras dos romances que lhe enchem as prateleiras e pesam sobre o colo.
Assim, dificultava a tentação de espreitar para lá do muro e embrenhava-se furiosamente nas linhas impressas dos tomos que escolhera para companhia.
Até à passada 4ª feira, logo pela alvorada.
Um ranger de dobradiças arrepiou-lhe a pele sob as rosetas de lã e o som de passos arrastados alvoroçou-lhe o coração.
Pelo meio da névoa matinal, vislumbrou uma silhueta esguia, envolta num pijama demasiado largo e deslocando-se em movimentos sincopados ao longo do pátio; estranhamente, reconheceu neles ritmos e cadências, compassos quaternários, ligeirezas e pausas que iam ficando desenhadas pelos pés, na fina camada de areia.
Maria quase não se permitiu a respirar. O músico dormia profundamente.
Sonâmbulo, passou horas a riscar no chão folhas de pauta, cheias de bemóis e sustenidos, notas incómodas, sonhadas de dia e que haveria de tocar à noite, roubando a outros as horas de sono a que os génios não têm direito.


Em fundo, 'Claire de Lune' - Debussy

9 comentários:

Gi disse...

Eu também tenho sonhos geniais, infelizmente não sou sonâmbula. ;)

Patti disse...

Gostei muito, como já é de hábito.
A velha Si, da doçura das palavra, do cuidado nas frases, na atenção do promenor e do encanto das histórias e suas personagens.

E olhe que esse sonâmbulo pode bem continuar...

Si disse...

Patti,

Estou a tentar encontrar de novo o que o tempo, ou a falta dele, teima em nos roubar.
Devagar.

:))))))

Pitanga Doce disse...

Ai que lindo este final! E Claire de Lune para completar. Quem me dera um vizinho que tocasse assim... a que horas fosse.

beijos em JULHO!

Rosa dos Ventos disse...

Parabéns!
Gostei muito...
Eu sou sonâmbula mas não toco piano! :-))

Abraço

paulofski disse...

Fantástico, o inicio da Patti, o final da Si e piano do Debussy.

Justine disse...

Belíssimo retrato de um estado de espírito, de uma testemunha, de um fulgor, de uma figura que poderia ser de Debussy...

Filoxera disse...

Gostei muito. Da história, do Claire de Lune e da foto.
Beijinhos.

annie hall disse...

Valeu a pena esperar!:)Lindo e agora ? continua?
Debussy ....a escolha ideal para esta prosa .