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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

conversas secretas


Olha lá, ó Vento!
Que tens tu contra mim?
Porque m’ atiras teu lamento,
uivo gemido em frenesim?
Achas-te muito poderoso,
é, um colossal irascível,
só porque, mesmo furioso,
o teu rosto é invisível?
A isso chamo eu traição,
o não ver claramente,
quem nos ergue a mão,
num açoite permanente.
Levantas o chão em fúria,
tão rabugento e rugidor
pra logo vir com a lamúria
de que sopras por amor?
Não, não pode ser!
Apaixonado, meu amigo?
Eu vou lá poder crer,
que precisamente contigo
isso possa acontecer!!
Mas que paixão funesta
te dará a motivação
de vergar mato e floresta,
em tom de furacão?
Que telhas e telhados
te impedem de amar
se não são eles os culpados
nem te podem ajudar?
Ora diz-me lá, a ventar,
de quem tu gostas realmente,
mas diz-me devagar,
pra perceber exactamente…
Quem? Tu endoidaste?
Esse nome qu’inda agora
tu me segredaste,
saiu-te pela boca fora,
ou comigo brincaste?
Enamorado pela Lua,
que tão longe foi morar,
e tu, que loucura tua,
achas que lhe vais chegar?
Abranda, amigo Vento,
escusas de te esforçar,
volta a soprar lento,
que não a podes conquistar.
O Sol já a levou, cortês,
num cruzar de raios tal,
que uma filha logo lhe fez
chamada Aurora, a Boreal.
Se queres, então, desabafar
o desgosto de amor imenso
em vez de raiva soprar
eu apelo ao teu bom senso:
chora apenas chuva,
nesse teu lamentar,
e clareia a nuvem turva,
que tão bem te faz chorar!

(Post publicado em 02 de Fevereiro de 2009)

Em fundo, Maroon 5 - Secret 

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

olhos nos olhos



olhos nos olhos, que tão bem conheço

cúmplices de histórias por inventar

sinceros e sérios como eu te peço

em mais do que um tempo do verbo amar




Em fundo,  Ben Harper  - In your eyes

segunda-feira, 26 de julho de 2010

onda do mar


foto minha, Peniche 2010

Tocas-me com os dedos
Brancos de espuma
Molhados de sal
Frios como a bruma
Esse afago arrepia-me
Sinto-me estremecer
E enrolada no teu abraço
Deixo-me adormecer


(Post publicado em 13 de Outubro de 2008)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

caída do céu

sou gota de orvalho
e este é meu fado,
cair desamparada
num fio delicado.
em fio delicado
cair sobre a folha,
não em chuva agreste,
nem que tolos molha,
mas apenas em gota
que do céu cai,
e o vento empurra
sabendo onde vai.
não molho a folha
para me poupar,
meu destino é outro
que vou encontrar.
em perfeita gota,
continuo a descer,
vou até ao caule
em lento escorrer,
para a boca que espera
a altura de me ter,
no seio da flor
a quem dou de beber


(Post publicado em 16 de Dezembro de 2008)


Em fundo, Train - Drops of Jupiter

segunda-feira, 12 de julho de 2010

contra-tempos



Na mais ordenada casa
surgem contratempos,
que tal como se indica,
atrasam o tempo dos tempos
que todos atribuímos
na gestão dos nossos momentos.
É deveras irritante,
esta mania de contradizer,
pondo de pernas para o ar
o que planeámos fazer.
Ora, se há horários,
se há horas a cumprir,
porque raio haverá também
um tempo de lhes fugir?
Sinceramente, não entendo
esta forma que o tempo tem
de, na vez de correr sereno,
correr como lhe convém.
Será qu'inda não percebeu
que n'altura em que desandou
passou o tempo a desfazer
o que o Tempo determinou
estar na altura de fazer?
Ai, Senhor Tempo,
meu rico Senhor Tempo,
diga lá o que fazemos
se inventa um contratempo?
Como vamos encontrar
um tempo definido
de forma a recuperar
aquele tempo já perdido?
Em boa verdade lhe digo,
a minha modesta posição
que neste ano que se inicia
tomo como resolução:
Não mais vou perder tempo
com tempo que não tenho,
e aproveitar cada momento
com o tempo que detenho.
É que só assim eu resolvo
esta luta contra o tempo,
aquele que teima em passar
mesmo contra o contratempo.


(Post publicado em 06 de Janeiro de 2009)

Em fundo, Time - Pink Floyd

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

diz-me

(clicar para aumentar)

Queres que te conte a minha história?
Então, olha-me bem fundo nestes olhos,
e perde-te nos fios da minha memória.
Lê os registos de dor, alegria e saudade,
mais os amores, as dores e outros escolhos,
escritos nas rugas, sulcos abertos da idade.
Que queres tu mais que eu te diga?
Nem me peças, adivinha tu.
Eu só olho.
Põe-me a alma a nu.

Incluído na Fábrica de Letras

quarta-feira, 29 de julho de 2009

possessões


é um sentimento louco,
que loucos adoram ter,
na loucura que existe
em possuir outro ser.
possuem intensamente,
não fazem por menos,
as promessas, os beijos,
em pudores obscenos.
as peles coladas,
em gritos calados,
transpiram a sede
dos corpos amados.
bailam e rodopiam,
conhecem os passos
da roda dos gestos
que unem os laços.
e alcançam as luzes,
e os suspiros disparam,
é tempo de descanso,
as almas já amaram.

**Post publicado em Outubro de 2008



terça-feira, 5 de maio de 2009

intimidades # 2



De papo para o ar e cabeça nas nuvens,
espreguiço braços, estico dedos dos pés,
sacudo poeiras e mais outras ferrugens,
a estalar, rangendo, c'os meus pontapés.
'Vou!' Atiro para trás lençois de cetim,
descubro cobertas de fofo algodão,
almofadas bem altas, outras assim-assim,
de fronhas robustas, bordadas à mão,
arejo à janela os leves edredões,
obrigo o sol a entrar pelas costuras
de pijamas largos, pantufas, roupões,
onde quer que o Inverno deixasse agruras,
que aspiro no filtro dum perfume fresquinho
'Fico!' Já é Primavera aqui no meu ninho!!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

em tempo de crise

Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 - Lisboa, 30 de Novembro de 1935)

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

(Fernando Pessoa)


Nota: Fernando Pessoa escreveu este poema, no chamado 'período de crise' da sua criação literária. Aqui fica o registo do resultado das suas reflexões, num tempo em que não é só a criação literária que está em causa, mas que necessita do mesmo tipo de afirmações.
Como diria uma vizinha.... 'bora lá???