quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

parasimpattias # 4


Exercício: Era uma vez...

Era uma vez uma Raínha belíssima que, bordando no bastidor, junto a uma janela de ébano, se picou inadvertidamente. Três gotas do seu sangue caíram em cima da neve do beiral e ela desejou ter uma filha que fosse tão branca como esta, tão negra como a nobre madeira das portadas e tão rubra como o sangue que derramara. E assim foi. Branca de Neve nasceu com uma pele alva, cabelos de azeviche e uma boca vermelha que haveria de despertar ódios e amores profundos....

A pena caiu para a frente formando um imenso borrão de tinta, que se espalhou pelas fibras de papel de trapo. E aproveitando a sonolência do Escritor, a Protagonista escapuliu-se, deixando atrás de si pegadas minúsculas que se foram desvanecendo e encobrindo o seu rasto.
Só de madrugada deu pela sua falta. Depois de um ronco mais profundo que o despertou sobressaltado, tentou escrevê-la mas ela não apareceu, deixando-o a ele à beira de um ataque de nervos e às outras personagens num burburinho surdo de impaciência.
- Que falta de respeito! - dizia o Caçador que lhe haveria de poupar a vida
- Eu já sabia que isto ia acontecer! - sobrepunha a Madrasta-Feiticeira olhando as longas unhas - Eu é que deveria ser a protagonista e não uma criaturinha desinteressante daquelas!
- Nós nunca mais vamos conseguir terminar esta história, nunca mais... - vaticinava o Anão Resmungão, abanando a cabeça e cofiando a barba.
Irritado, o Escritor bateu com o punho na mesa e mandou-os calar. - Que mistério este! - desabafou - Precisava de a encontrar ou todo o seu esforço de criação teria sido inútil.
O Príncipe Perfeito ofereceu-se. Montado no seu alazão branco, arreado a dourados, partiria na direcção das pegadas desvanecidas, saindo pelo papel fora, num salto arriscado de várias frases, capa solta ao vento e coroa muito direita na loira cabeça.
Aterrou em cima de um livro poeirento e estacou, convencido de ter ouvido um ruído nas imediações. Decidiu segui-lo e percebeu que de lá de dentro vinham vozes alteradas, altercações, canções desafinadas, gargalhadas, palmas e assobios. Cada vez mais intrigado, embrenhou-se por uma frecha das páginas carcomidas, descobrindo, por entre casulos vazios de traças, um caminho secreto que o haveria de levar quase até à lombada. Habituado que estava a viver em palácios faiscantes, teve alguma dificuldade em se adaptar à escuridão daquele covil e, mais ainda, em acreditar naquilo que os seus olhos iam vendo.
O vinho, despejado para dentro de grosseiras canecas de barro, corria a rodos, servido por gnomos submissos vestidos apenas com aventais de carneira; no piano, de saia arregaçada até à liga e sapatinhos de cristal espalhados pelo chão, Cinderela ensaiava uns acordes com os dedos dos pés, entre duas baforadas na comprida boquilha; esvoaçando sem controlo e visivelmente alterada na sua capacidade de raciocínio, a Fada-Madrinha espalhava feitiços aleatórios pela ampla sala, onde já pululavam coelhos encartolados, grasnavam gansos de oiro e coaxavam sapos reais. Rapunzel, soltava risinhos histéricos, divertida a fazer tropeçar os gnomos que se esgueiravam por entre as mesas com louças encasteladas, laçando-os como bezerros nas suas próprias tranças; e ao canto, iluminada pelo spot-light, Branca volteava-se sensualmente no varão, de body-verniz e botas-plataforma a condizer, lançando beijos em forma de coração a uma plateia ávida de lhe provar aqueles lábios encarnudos.
Acabara de se apoiar numa coluna, para se manter em cima das trémulas pernas e evitar sucumbir ao quase desmaio, quando Branca reparou nele. Calmamente, deslizou pelo varão, recolheu as notas que lhe estendiam, escondendo-as no decote, e saiu do palco bamboleante, pelo meio dos protestos cavernosos do seu maior fã, o Gigante Fi-Fó-Fum.
Sem rodeios nem desculpas, explicou ao Príncipe a razão da sua fuga: elas, as Protagonistas e Personagens Mágicas de Boa Índole dos Contos de Fadas, estavam saturadas de serem as boazinhas, as bonitinhas, as mártires da perfeição e das moralidades; e então aquilo de viverem felizes para sempre com o mesmo ricaço, deixava-as tolhidas para enfrentarem a eternidade, compelidas a cumprir apenas os destinos alheios.
Balbuciante e pouco convincente, ele ainda lhe falou dos deveres, dos compromissos assumidos, da dependência de outras personagens, da alma criativa do Escritor, mas Branca estava irredutível: saíra daquele filme para não mais voltar.
Desesperado, o Príncipe utilizou um último argumento. E então as crianças? Como ficariam elas se a magia não existisse nas suas vidas, se o bem não vencesse sempre o mal, e a felicidade fosse tão somente algo efémero?
Branca vacilou; afinal elas eram o seu ponto fraco. Suspirando resignada, aceitou regressar, mas com uma condição: a cada doze meses exactos, todas se voltariam a reunir naquele mesmo local, para viverem, por um dia, as suas próprias fantasias.
Pois desde aí, e caso nunca tenham reparado, há sempre uma altura no ano em que os pais deitam os filhos mais cedo e os filhos adormecem mais tarde, porque as histórias simplesmente não acontecem, excepto num livro poeirento e carcomido que nunca se deixou ler por ninguém.

Eu prometi que iria sacudir sacudir o vosso imaginário.
Que terá feito a Patti para o conseguir?


23 comentários:

pedro oliveira disse...

Uma sacudidela muito bem dada, sim senhora.E que o desejo da Branca se cumpra.

Eva Gonçalves disse...

:)) É verdade sim, essa história, já tinha ouvido... este ano, parece que vão aparecer todas disfarçadas de vampiros que é o que está a dar... :) Gostei dessa reivindicação das personagens, afinal ser bonzinho toda a vida, é muito frustrante( quer dizer...deve ser, faço ideia... rrss)

Patti disse...

Eu sempre desconfiei desses tempos livres, aquelas carinhas de anjo nunca me enganaram e ainda bem. Tão princesas como as outras; nós claro.

Olhe, e a letrinha miudinha, miudinha depois da liga da outra pudica, também se vê muito bem!

Kristal disse...

Continuo a achar uma parceria perfeita.A 1ª parte toda muito suave,ternurenta,a fazer-nos chorar de dor com as desventuras das pobres meninas bem-nascidas ,mas vítimas de madrastas preversas ou maldições de fadas más,e chorar de alegria com o final sempre feliz ao lado do herdeiro da coroa belo e perfeito.
A segunda parte que, encaixando perfeitamente,desmonta todo o paradigma e nos diverte à brava com o inesperado destino da personagem que foge ao autor e vai,livre,gozar a vidinha,para outro livro de histórias!
Parabéns

Reflexos disse...

Não gostei.











ADOREI!!!!!!!!!!!!!
As duas histórias...
Parabéns

Luísa disse...

Si, levanta aí uma questão a que nunca procurei a resposta que gostaria de ter: qual terá sido o real impacto destas histórias na nossa formação. Porque nem todos os valores são os valores «certos», numa perspectiva cristã, por exemplo. Nomeadamente, o extremar do «bem» e do «mal, o tal maniqueísmo hoje tão fora de moda. E a ideia do príncipe perfeito e da felicidade eterna, não como algo que se pode ou deve procurar na vida, mas como um final que nos está garantido à partida, parece-me perigosíssima! Como já comentei na Patti, seria interessante reescrever essas histórias à luz dos dias de hoje. :-)

Kristal disse...

Com tanta coincidência no fabrico das histórias até parece haver telepatia.

Nota:no comentário anterior queria escrever "perverso",mas fugiu-me o dedo para o chinelo,e lá foi erro.
(Ou terá sido a tecla a pregar a partida voluntariamente?

Dulce disse...

Afinal, as mudanças acontecem até mesmo nas almas das cândidas princesas que, acompanhando a modernidade, querem também a tão decantada liberdade feminina! Exatamente como as mais simples mortais... Imaginou quantas mulheres sonham com isso? Com a coragem de poderem partir as amarras e viverem seus sonhos de liberdade???

Você e a Patti criaram textos incríveis, Si. Parabéns às duas.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Já li as duas histórias e o comentário é copy paste:
Será que ambas estiveram a ler ese magnífico livro que é "A Psicanálise dos Contos de Fadas?"
E já agora: o tema foi escolhido em homenagem à nossa Fada?

Si disse...

Carlos,
Eu não li de certeza, e, com esse título, duvido que a Patti o tenha feito, mas só ela poderá responder.
Quanto à homenagem à Fada, não fora o tema estar escolhido há mais de um mês e bem que o poderia ser.
Tudo o que possa favorecer o regresso desta vizinha ao blogobairro é um prazer fazer. :))))

Mike disse...

Ó Si, vamos lá por partes... este texto está magnífico, mas entre o seu texto e o da presidentA, é como ter-se juntado a fome à vontade de comer. A Patti fala de libertinagem e a menina arremessa-nos com uma foto destas da Branca de Neve?... um homem não é de ferro... nem um anjo...
(Muito bom!)

BlueVelvet disse...

Como já disse na Patti convinha porem uma bolinha no canto do écran, quando vos dá para desatinar.
Parece que uma das fantasias dos homens é veram as parceiras com ar diáfano, mas vestidas assim.Manias...
Gostei muito da volta final: as crianças, sempre elas lá conseguiram demover a Branca de Neve.
O Príncipe, malandro como todos os homens arranjou um grande argumento.
Adorei as duas histórias.
Beijinhos de mim para Si

Antonio saramago disse...

Muito para a "FRENTEX" Sra. SI!!!

Justine disse...

Vivá subversão! Vivá imaginação! Brancas Independentes ao poder!!
Delirante...delirei:))

Filoxera disse...

Ora bem, viva a evolução do imaginário. Estereótipos não.
Os valores transmitem-se pelo exemplo nos comportamentos e nunca se é só "bom ou exclusivamente" "mau".

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pois olhe que o livro é excelente, Si. Faz a leitura psicanalítica dos mais conhecidos contos de fadas, de uma forma interessantíssima.
Mas claro que estava a brincar, como devem ter percebido.Só que as vossas belíssimas histórias fizeram-me lembrar o livro.

paulofski disse...

São histórias bem humoradas, fábulas modernas para tempos modernos, que bem poderiam expressar a realidade que conhecemos, mas as coisas nunca são o que parecem...

Gostei muito Si.

Antonio saramago disse...

Volto aqui e só para deixar um bocadinho do meu algum Cavalheirismo ao querer desejar-te um BOM FDS.

Gi disse...

Eu acho que a Branca foi à procura da maçã reineta, a única capaz de com a sua acidez lhe fazer um belo assado.

Pitanga Doce disse...

Ó carago eu não posso ler o texto todo. São quase cinco horas e a Net vai fechar. Olha, que raio de Branca de Neve é essa? Sexy a rapariga hein? Na segunda eu volto com mais calma.

Vou tentar ir a Patti.

beijos do lado de cá e de cá mesmo

Turmalina disse...

Moderninho, né?...rsssss....

Dulce Braga disse...

Questionar e revolucionar!..por que não?:)

JPD disse...

Gostei muito desta narrativa.

Razões:

- Está muito bem escrita e com um enredo consistente;
- É-nos apresentada uma Branca cheia de fantasias mas com um sentido funcional de enorme responsabilidade: assegurar a manutenção das fantasias das crianças, uma vez que seja, por ano. Isso é muito bom por resolver a questão da dança.

(Há um autor português, Jose Sasportes que já editou dois livros fantásticos:
- «OS DIAS CONTADOS»
- «VIAGEM DE MARCOLINA AO ÚLTIMO DUELO DE CASANOVA»

Esta obras começam onde livros publicados terminaram.

Imperdíveis.

O começode «OS DIAS CONTADOS» é soberbo.

Saudações