quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

parasimpattias # 3


Exercício: descrever de forma intensa, a primeira experiência que a memória registou, da cor branca

Avassalou-me logo que abri os olhos para o mundo. Levantei pela primeira vez o sobrolho e inundou-me de serenidade e aconchego, o branco do seio da minha mãe, quando sobre ele me deitaram, acabada de nascer.
Espreguicei, então, os braços e as pernas para me oferecer à vida; tinha uma mente em branco, virgem de imagens, cores, cheiros e sons, páginas e páginas branquejadas, ainda por escrever e destinar. E foi nessa urgência, irrequieta e voluntariosa, que o selo branco da família se me carimbou, dando-me a graça de Branca Alva Branquinho, albicastrense de coração.
Ainda o silêncio enlevado se fazia sentir, quando um berro surdo estremeceu e anunciou que a avidez tomava conta de mim. Em segundos, língua, lábios e gengivas procuraram, encontraram e sugaram, intuitivos, o líquido brancoso jorrado em bica de peitos grávidos de leite e sustento, embranquecendo o colostro a cada sorvo sôfrego e provocando um esgar sorrido nos progenitores; pelas brancúleas dentaduras, adivinhava-se à distância o orgulho desmedido na sua primeira descendência e não eram os únicos: avós, tios e primos rapidamente se juntaram em redor para admirar o novo membro da família. No ar, desfraldou-se a bandeira branca sobre antigas quezílias que deixavam de fazer sentido pelo milagre do nascimento, puxou-se o lustro a laços embaciados e fizeram-se as pazes sob a sensatez que os branquíssimos cabelos da Avó paterna impôs. E pela harmonia reencontrada após tantos anos, assim me transformei no ai jesus de todos, na menina a quem as cambraias branco-anjo futuravam bons auspícios lá pelo meio do branco-névoa do que a vida haveria de ser.
Mas ainda era muito cedo para saber e essas linhas em branco a seu tempo se escreveriam.
Saciada da fome de nascer, permiti que o cansaço me preenchesse, troquei a pálida luz pelo alvacento das pálpebras cerradas e, finalmente, abandonei-me na branquilidade do regaço materno, dormindo um sono solto, enquanto, lá fora, nesse dia 25 de Dezembro de 1967, a brancura do frio caía em flocos imponderáveis.


E porque as memórias têm todas as cores, qual se guardará nas lembranças da Patti?


23 comentários:

pedro oliveira disse...

Fantástica descrição para um exercicio muito dificil.Qual será a minha mais antiga memória e quais as sensações? vou pensar nisso,
bjs

Kristal disse...

Se eu fosse professora,classificaria : EXCELENTE MAIS.Assim digo que acabei de ler um texto da Si cheio de ternura,e a cor branca não podia estar mais bem evocada :o seio da mãe,primeiro contacto exterior,o leite que de puro branco vai alimentar a alvura do serzinho,até as cãs da avó tecem o clima de Paz que há-de vir a reinar na família.Enfim,não me quero alongar para deixar espaço.
Quanto ao vermelho da Patti,escalda pela descrição do que
era o parque de brincadeiras onde
as esmurradelas provocadas pela rudeza das pedras do chão,pelo agressor cavalinho,pelo sangue vermelho que chegava a pintar as pedras do piso,é portador de uma carga de vida que,longe de fazer desmaiar qualquer criança,a fez resitente à dor e capaz de sarar qualquer arranhão da Vida.Gostei muito do texto.Venham mais

Vera disse...

Bonito :-)
Muito bonito mesmo!
Bom Ano Si

Isabel Mota disse...

Olá
Chamo-me Isabel e também cresci numa aldeia perto de Castelo Branco. Cheguei aqui através de ares cheios de graça, ou seja através do blog da Patti. Partilho da cor branca como primeira cor que guardo na memória e transmiti-o num comentário que deixei no blog da Patti antes mesmo que chegar aqui. Depois entrei... e adorei este texto. Muito bela a descrição desse dia... muito obrigada pela beleza desta partilha. Beijinhos, Isabel Mota

Si disse...

Isabel,
Seja bem vinda.
A porta branca da entrada desta minha casa estará sempre aberta para a receber.
Obrigada pela visita e volte sempre!
Beijinhos

Patti disse...

Bem-vinda analogia essa da associação do branco ao nascimento, Si.
Um bebé traz sempre paz, tranquilidade e acaba com dissabores e quezílias, na verdade assim é.
Plena brancura a sua. Missão cumprida.

E agora exercitaremos o quê?

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Cheio de ternura e emotividade este seu belíssimo texto, Si. Mas esperava um bocado mais de azul (rsrsrs)!

Reflexos disse...

Perfeito. Adorei.
E a ilustração é a cereja do bolo.
Parabéns.
Bjinnhos

Luísa disse...

O nascimento é branco, Si, tem toda a razão. Um branco muito mais limpo e cheio de esperança do que qualquer verde (excepção feita do «verde desportivo»…) Gostei imenso de ler, Si: quase recordei o momento da minha chegada ao mundo. ;-D

Tite disse...

Lindas memórias!
Longínquas memórias.
Brancura...
Pureza de bebé...
Pureza dum seio...
Pureza do leite materno...
Pureza da Paz
Que une família em conflito.

Adorei!!!!!
Parabéns à autora

cristina ribeiro disse...

A ternura que se solta deste texto!

Mike disse...

Nem consigo pensar direito... raios! como gostava de escrever assim...

Justine disse...

Magnífico texto, Si, em que misturas com mestria afectividade e ironia. Encantada, deixo-me envolver pelo xaile branco tecido pelas tuas palavras!

(obrigada pelo reparo - asneira de "analfabeta" nestas coias. Mas a legalidade já está reposta, já fiz aparecer o corneteiro:)) )

Dulce disse...

Sinceramente não sei qual foi a primeira cor que deslumbraram meus olhos , suponho mesmo que tenha sido o branco, visto que nos "antigamentes" bebês eram sempre envoltos em branco, mas tenho um queda incontestável pelo suave lilás, cor que jamais vestiria uma criança.
Lindo seu texto, Si.
Beijos

Lúcia disse...

Ai, Si..........
Shiuuu.
Lindo, branco, puro e silencioso!:)
Bonito pra caraças!
Poççaaaa...

Pitanga Doce disse...

Tão lindo, Si! Geralmente os bebês que vêm em torno de desarmonias são muito amados. E depois é vida que segue...

beijos da Pitanguinha (gaivotinha) hehe

BlueVelvet disse...

Lindo, lindo.
E cheio de pormenores que tornam o texto tão rico.
Bem verdade que os nascimentos têm, por vezes, o condão de reunir desafectos.
Beijinhos de mim para Si

Pitanga Doce disse...

Ó SIIIII anda em meu socorro lá em casa que a PresidentA quer me cravar uma multa! Já a da Blue podes deixar. hehehe

Rosa dos Ventos disse...

Belo texto!
A minha recordação mais remota é o azul do mar da Nazaré...
Teria talvez três anos, embora fosse lá ainda antes de nascer! :-))

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Acrescento que também gostei do vermelho da presidentA...

Abraço

Pitanga Doce disse...

Si vai a Blue que há lá enguiço. hehehe

Gi disse...

Não sei qual a cor que primeiro me chegou aos olhos. Dizem que começamos a ver ainda dentro da barriga das nossas mães ... pelo que não deverá ter sido o branco.

Adoro o branco, eu!
É, muitas vezes, esta cor que impede a minha impulsividade de a sujar.
Com a raiva vejo tudo branco e, se realmente, observar o branco que vejo, acabo por acalmar e não (me) tingir de outras cores.

Adorei o texto, Si!


PS.: Não sabe como ando branca! ;)

Dulce Braga disse...

Lindo...terno...doce...!!!!
bjs